The great freedom, dirigido pelo austríaco Sebastian Meise, passa-se, num primeiro momento, na Alemanha do pós-guerra, e é protagonizado por Hans Hoffman, interpretado com sagacidade, delicadeza e brio pelo ator alemão Franz Rogowski (Em trânsito). Ele é um jovem homossexual constantemente mandado para a prisão por seus atos. O parágrafo 175 do Código Penal Alemão da época punia a homossexualidade dessa forma.
A vida na prisão se transforma, o tempo se torna outro, passa de outra maneira, os sentimentos e emoções também se dão de outra forma. Mas Meise, que assina o roteiro com Thomas Reider, introduz outras camadas ao filme quando situa a ação também em outros momentos da vida do personagem. A narrativa que transita entre os períodos, diferenciados especialmente pela aparência do protagonista, acompanha transformações pessoais e históricas. Ajuda também nessas transições o fato de a interpretação de Rogowski ser tão minuciosa e detalhista.
Intervenções em imagens que parecem de filmes caseiros em formato e textura dão conta da sexualidade e dos amores de Hoffman, um homem que, de tempos em tempos, é solto da prisão, só para, mais tarde voltar, pelos mesmos motivos. A primeira vez que é encarcerado foi logo depois de sair de um campo de concentração. O companheiro de cela é Viktor (Georg Friedrich), um traficante homofóbico que odeia ainda mais o protagonista quando descobre o motivo da prisão.
Pouco sabemos também do protagonista exceto por seus relacionamentos com Oskar (Thomas Prenn), que está na prisão com ele nos anos de 1950 e, na década seguinte, com Leo (Anton von Lucke), um jovem professor preso quando estava num banheiro com ele. A maneira como The great freedom retrata esses relacionamentos é terna, pois eles são os poucos momentos de real afeto – mesmo em meio ao caos de violência do presídio – na vida de Hoffman.
Ao mesmo tempo, Viktor se transforma. É claro que, num filme tão repleto de nuances, isso não se dá de maneira rápida nem óbvia. Meise lida aqui com figuras humanas e repletas de complexidade. Os laços desse personagem com o protagonista passam por diversos momentos, desde a repulsa até a aproximação. Essa dinâmica poderia cair no clichê ou em algo inverossímil, mas nas mãos do diretor e da dupla de atores é totalmente sincera e verdadeira – tal como o filme em si.
