04/07/2026
Drama

O debate

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2022, acontece o último debate entre os dois candidatos. Enquanto acompanham um programa, um ex-casal de jornalistas de um telejornal discute o Brasil, o fim do seu casamento e como noticiar o debate no programa que irá ao ar em breve.

post-ex_7
Publicada no segundo semestre de 2021, pela Editora Cobogó, O Debate é uma peça que Guel Arraes e Jorge Furtado escreveram no calor do momento, pensando num futuro próximo – as eleições presidenciais em outubro de 2022, quando o mundo enfrenta uma nova cepa do coronavírus, que ameaça novas restrições – mas refletindo sobre aquele presente com questões que perduram até hoje. O texto chega aos cinema com direção de Caio Blat, que estreia na direção de cinema, e roteiro escrito pelos autores do original.
 
Apesar de o filme trazer algumas personagens a mais e flashbacks, o centro da ação está mantido com o embate entre Paula (Deborah Bloch) e Marcos (Paulo Betti), ex-casal e colegas de trabalho num telejornal: âncora e editor, respectivamente. A narrativa se passa durante algumas horas, às vésperas do segundo turno das eleições, durante um debate entre Lula e Bolsonaro, que nunca são nomeados (embora na peça original o sejam), mas é bem fácil saber quem é quem.
 
“Ele parece um fascista, pensa como um fascista, fala como um fascista, age como um fascista”, diz Paula sobre um dos candidatos. “Ele já foi governo muito tempo. Disse que ia mudar as faixas do imposto de renda, aliviar pros mais pobres, nunca mudou,” comenta Marcos sobre o outro. São várias as situações como essas em que os respectivos governos e personas são mencionados.
 
O debate entre os políticos, ao qual só temos acesso pelos comentários de Paula e Marcos, que a todo momento vão a uma varanda na redação do telejornal fumar, é acirrado, com altos e baixos. Paula é, clara e assumidamente, pró-Lula, enquanto Marcos também é, mas fica em cima do muro em nome do “bom jornalismo isento”. Mais do que o debate entre os candidatos, o debate é entre os dois jornalistas – um ex-casal, que se separou há pouco –, uma das consequências da pandemia.
 
O texto de Furtado e Arraes é repleto de momentos de humor ácido – como é típico no cinema deles – e também diálogos inusitados que parecem saídos de uma crônica de Luis Fernando Verissimo. As referências a situações reais cotidianas também são uma constante: “uma difícil escolha”, ironiza Paula num dos momentos em que o editor fica em cima do muro. Os flashbacks, que resgatam a história do casal durante alguns momentos da pandemia, isolados em casa, trazem um respiro ao filme, que é, primordialmente, verborrágico, com diálogos rápidos no embate entre Paula e Marcos.
 
O debate está longe de ser grande cinema, mas, como o texto original, é um longa de urgência que, provavelmente, não resistirá à prova do tempo – estará datado em breve mas, ainda assim, talvez sirva como retrato de uma época. De qualquer forma, pode não ser o filme que queríamos, mas é aquele do qual precisamos nesse momento.
post