Partindo da peça teatral homônima, escrita em 2013 por Luiz Alberto de Abreu, Lima Barreto ao terceiro dia, de Luiz Antonio Pilar - diretor da peça no teatro - explora de maneira criativa aspectos dramáticos da vida do jornalista e escritor carioca (1881-1922). O roteiro é de Abreu e Pilar.
Luis Miranda interpreta o escritor na maturidade, em 1919, quando ele foi mais uma vez internado num hospital psiquiátrico, depois de um surto psicótico. Tal como na peça, a narrativa se desenvolve em três planos: o momento real, no hospital, em que Lima divide uma cela com outro paciente, Felipe (Eduardo Silva); o momento da memória, ocupado pelo escritor aos 30 anos (aqui vivido por Sidney Santiago Kwanza), lutando para concluir o romance O Triste fim de Policarpo Quaresma; e o momento da imaginação, em que atuam personagens deste livro, como Policarpo (Orã Figueiredo), sua irmã Adelaide (Gisele Fróes), sua amiga Vitória (Cristiane Amorim) e a jovem filha desta, Ismênia (Maria Clara Vicente).
A ambição deste projeto é compatível com a intenção da peça e do filme, que discutem com muitas nuances a figura contraditória e trágica do talentoso escritor, um homem profundamente crítico das instituições de seu tempo, resgatando com a devida complexidade uma figura da maior importância da literatura brasileira que ainda não ocupa o espaço devido aos seus méritos - mesmo passados 100 anos de sua morte. O que, sem dúvida, tem muito a ver com sua origem popular e sua negritude.
Luis Miranda faz um verdadeiro tour de force com este personagem profundamente amargurado e dividido que, mesmo acometido de surtos, não deixa de manifestar em vários momentos uma lucidez afiada e amarga - que ele brande em suas conversas com seu eu jovem e também como Policarpo Quaresma, sem dúvida o alter ego de uma das fases de sua vida.
A passagem do teatro para o cinema apresenta desafios, como a linguagem mais sofisticada, que a montagem de André Pacheco e Luiz Antonio Pilar procuram atenuar, bem como a bela fotografia de Daniel Leite - que cria os climas e as passagens entre os planos reais e imaginários da história. Eventualmente, há alguns problemas de ritmo e diferença de tons de interpretação, mas nada que destitua o filme de seu grande interesse.
