Noite Infeliz é uma tentativa de fazer um filme de Natal diferente. E realiza muito bem em seu propósito, embora seja uma cópia genérica de comédias de ação, uma mistura de Duro de Matar com Esqueceram de mim. Aqui se preza pela boa e velha ultraviolência. Isto posto, o resultado é bem divertido, numa diversão sem um pingo de massa cinzenta, muita testosterona e alguma serotonina.
David Harbour, conhecido pelo papel de Jim Hopper, da série Stranger Things, é um achado para interpretar o verdadeiro Papai Noel, um sujeito alcoólatra e desbocado que se torna herói à contragosto para salvar a vida de uma garotinha e sua família, feitas refém por bandidos na Noite de Natal.
Trudy (Leah Brady) vai com o pai, Jason (Alex Hassell), e a mãe, Linda (Alexis Louder), passar o Natal na mansão da avó, utramilionária, Gertrude (Beverly D'Angelo). O casal já está separado mas finge que não para não criar problemas com a matriarca. Além disso, ainda têm de enfrentar a irmã interesseira e cínica de Jason, Alva (Edi Patterson, roubando a cena), seu namoradinho (Cam Gigandet) e o filho influencer, Bert (Alexander Elliot).
É uma família de novela, que se odeia e vive disputando o dinheiro de Gertrude. O filme, dirigido por Tommy Wirkola, explora isso mais no seu primeiro ato, mostrando as desavenças da família, e como Jason, Linda e especialmente Trudy não pertencem àquele ambiente tóxico. Depois disso, centra-se mais no Papai Noel fazendo com má vontade seu trabalho até chegar à mansão dos protagonistas.
No mesmo momento, a casa é tomada por sequestradores, que trabalhavam como o buffet responsável pela ceia. Entra em cena também Scrooge (John Leguizamo), chefe da quadrilha que pretende roubar a fortuna que está no cofre por conta dos negócios escusos de Gertrude com o governo. Essa parte do plot é meio tola e não faz sentido, serve apenas como uma desculpa para a mulher ter tanto dinheiro em casa.
Papai Noel é quem deverá salvar o dia, ao se comunicar com Trudy por walkie-talkie. A menina, por sua vez, acabou de ver Esqueceram de Mim e também prepara algumas armadilhas para os bandidos – mas Noite Infeliz está longe de ser um filme infantil. O sangue aqui jorra sem qualquer pudor. É um filme extremamente violento, a ponto de anestesiar seu público com sua violência gratuita. Mas é improvável que alguém queira lacrar sendo desconstruído e problematizar o que se vê aqui, pois tudo está quase num plano da fantasia.
Com roteiro de Pat Casey e Josh Miller, este longa pertence a um subgênero de “ricos sofrendo”. A família faz parte dos 1% - no caso deles, talvez dos 0,1%, tamanha sua fortuna. São todos personagens caricatos – as vítimas, os sequestradores e até o Papai Noel – mas isso pouco importa. Seria talvez ofensivo se fosse um filme sério, mas Noite Infeliz não se leva a sério em nenhum momento, e a comédia vem tanto de clichês quanto de momentos inesperados.
A grande estrela aqui é, realmente, Harbour como o Papai Noel beberrão e falastrão que está cansado desse emprego e precisa redescobrir o espírito natalino. Com uma explicação estapafúrdia de sua origem, ele tem a possibilidade de usar um coque masculino enquanto empunha um martelo mágico gigante – o que torna o personagem ainda mais divertido.
