Guy Ritchie foi uma espécie de fenômeno que surgiu no final do século passado, chamando a atenção com um pequeno filme britânico independente, Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. Era uma piscadela para o cinema de gângster inglês combinando o típico humor britânico com tiros e porradas. No entanto, o diretor se tornou uma espécie de promessa que não se cumpriu – do casamento com Madonna (que rendeu o tenebroso remake de Destino insólito, protagonizado por ela, e um divórcio) a obras pouco autorais, embora sempre com uma leve marca registrada.
Talvez só agora com Esquema de Risco: Operação Fortune, ele, finalmente, se reencontre. Por mais que tenha uns sucessos pelo meio do caminho – como os dois filmes Sherlock Holmes –, tudo parecia genérico. Agora, ele volta à verve de sua estreia – e com orçamento bem mais polpudo.
É um filme, no geral, confuso e sem sentido, mas tudo é tão bem orquestrado que, em certa medida, funciona, apesar dos excessos. A trama tem como ponto de partida o roubo de uma mala roubada em Odessa. Por boa parte do tempo, não sabemos o que tem lá dentro – e isso, realmente, pouco importa. De qualquer forma, o fato preocupa o governo britânico, e o agente Nathan Jasmine (Cary Elwes) é chamado para descobrir o paradeiro do objeto. Os meios legais não podem ser seguidos, envolveria muita burocracia, e tomaria tempo.
Entra em cena Orson Fortune (Jason Statham), um mercenário especializado em casos complicados que devem ser resolvidos por debaixo dos panos. Nathan monta um time, que inclui, além de Fortune, a americana Sara Fidel (Aubrey Plaza, a melhor presença no filme) e J.J. Davies (Bugzy Malone).
Como é comum no gênero, se levar a sério demais a trama, nada funciona, porque, realmente, lógica ou verossimilhança passam longe. A narrativa engendrada por Ritchie, que assina o roteiro com Ivan Atkinson e Marn Davies, é estapafúrdia o suficiente para garantir cenas de ação com Statham distribuindo porrada e tiros – que é o que importa.
O caminho para a mala, que está sendo negociada internacionalmente, passa por um milionário, Greg Simmonds (Hugh Grant), podre de rico com obsessão por celebridades, em especial um ator de filmes de ação, Danny Francesco (Josh Hartnett), recrutado para o plano – na verdade, chantageado – para chegar perto de Simmonds. Há situações de humor tiradas disso: Francesco não tem o menor talento como ator e precisa atuar sendo ele mesmo, enquanto Sara se passa por sua namorada e Fortune, seu empresário. E há também uma outra equipe – sabe-se lá contratada por quem – atrás dessa mala milionária que cruza os caminhos dos heróis do filme.
Esquema de Risco: Operação Fortune é pura diversão descerebrada. Não cobra nenhum esforço intelectual – tentar seguir a trama é mera bobagem –, e garante duas horas de pura diversão. Não é para esperar algo como, digamos, Carter – O Vingador, para ficar, na seara de filmes policiais ingleses, mas também ninguém que Ritchie mexa com esse clássico mesmo. Aqui, ele aponta para o começo de uma nova franquia que, se souber conduzir, tem muito a explorar mesmo.
