18/07/2026
Terror

Pearl

Enquanto seu marido luta na I Guerra, Pearl, morando com os pais numa fazenda no interior dos EUA, sonha em ser uma estrela. Nada a impedirá de realizar suas aspirações, nem que para isso precise derramar sangue.

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E se os melodramas de Douglas Sirk fossem um slasher? Talvez tenha sido essa pergunta que passou pela cabeça do diretor e roteirista Ti West quando concebeu seu Pearl, ou não – mas pouco importa. A prequel de X – A Marca da Morte é uma homenagem ao Technicolor sirkiano com seu colorido vibrante, que adiciona ainda mais brilho para o sangue que jorra com gosto. É um filme inusitado, altamente inventivo e envolvente, que homenageia o cinema dos anos de 1950.
 
Mia Goth, protagonista de X, como Maxine, e que também interpretou a idosa Pearl no filme original, retoma a personagem, além de ser creditada como corroteirista. Assim, com esse trabalho, tornou-se merecidamente a nova queridinha dos filmes de terror. Não há dúvida de que o longa é dela. Com um sorriso dissimuladamente forçado, ela retrata a transformação de uma jovem pouco equilibrada que sonha em ser uma estrela de filmes.
 
A época da narrativa é 1918, quando a Gripe Espanhola está em curso – a cena em que Pearl coloca uma máscara para sair na rua é assustadora, dado o contexto recente do mundo. West e Goth escreveram e filmaram Pearl enquanto estavam em quarentena na Nova Zelândia fazendo X, por isso puderam usar os mesmos cenários e rodar ambos os longas ao mesmo tempo.
 
Morando com os pais numa fazenda, a jovem Pearl espera a volta de seu marido Howard (Alistair Sewell), que está na Europa lutando na I Guerra. Filha de imigrantes alemães, ela vive sob regras rígidas. A mãe, Ruth (Tandi Wright), uma fanática religiosa, coloca a filha para cuidar do pai (Mathew Sunderland), que não se movimenta, nem fala.
 
“Um dia o mundo conhecerá o meu nome”, diz Pearl, enquanto aspira a ser uma estrela. E nada ficará no seu caminho rumo ao estrelato – embora Ruth sempre zombe desse sonho da filha. Para fugir da mãe opressora e violenta, a jovem se refugia num pequeno cinema local, onde conhece o projecionista (David Corenswet), que estimula as ambições artísticas da protagonista, que se mantém fiel ao marido até que o rapaz lhe apresenta filmes “de arte” europeus.
 
West constrói Pearl sem muita pressa. A personagem é apresentada aos poucos, assim como seu crocodilo de estimação, que vive num lago ao lado da fazenda, e o alimenta com animais que ela mesma mata. Goth, por sua vez, é impressionante nessa personagem complexa e repleta de nuances. A imagem final sobre a qual aparecem os créditos é, ao mesmo tempo, linda e dolorosa.
 
A dissonância formal que Pearl cria é sua força. De um lado, os chamados “filmes femininos”, típicos desde o cinema silencioso até os anos de 1950, histórias de amor impossíveis protagonizados por mulheres, e feitos para chorar. De outro, os slashers violentos, mas também satíricos – e, no caso, de uma sociedade opressiva contra as mulheres, cujas vidas são relegadas a papéis preordenados antes de nascerem. O efeito final desse encontro (ou seria embate?) é potente aqui.
 
Fora isso tudo, há uma beleza visual impressionante na fotografia de Eliot Rockett e no desenho de produção de Tom Hammock. É um filme esteticamente lindo de se ver, e ao lado de X, um retrato sobre uma mulher em busca de sua identidade e seus objetivos. Que venha logo MaXXXine, a nova empreitada da dupla West/Goth, que conta a história da personagem do filme original na Los Angeles dos anos de 1980.
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