Estudante da UnB nos anos 1970, João adere à guerrilha rural no Araguaia. Um dia, acaba preso e conhece na prisão Zaqueu, um rapaz evangélico e que está preso por engano. Apesar das diferenças de sua fé e ideais de vida, os dois acabam desenvolvendo uma amizade. E marcam um reencontro para o ano 2000. Nessa época, uma jovem descobre a história dos dois e também o envolvimento de seu próprio pai, um coronel, com a tortura.
- Por Neusa Barbosa
- 23/01/2023
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Baseado nas memórias do ex-militante da luta armada Glênio Sá, o drama O Pastor e o Guerrilheiro, de José Eduardo Belmonte, une dois tempos e duas pontas da realidade brasileira, entre o início dos anos 1970 e o final dos 1990, numa discussão que ressoa muito no presente - mérito do filme, que tem produção, direção e atuação empenhados.
O roteiro, assinado pela argentina Josefina Trotta, José Eduardo Belmonte e Nilson Rodrigues (também o produtor), avança adiante do livro de Sá - Relato de um Guerrilheiro - , introduzindo como fio condutor a personagem Juliana (Júlia Dalávia), uma jovem estudante universitária, filha de mãe solteira e falecida, que repentinamente tem notícias da morte do pai, que nunca conheceu e de quem receberá uma herança. Este era um coronel (Ricardo Gelli) que, como a filha descobre, foi um torturador durante a ditadura militar de 1964.
Uma complexidade da narrativa é lidar com estes dois tempos que se contrapõem, o de meados dos anos 1970, quando o jovem João (Johnny Massaro) deixa a Universidade de Brasília para juntar-se à guerrilha rural no Araguaia - o que Juliana acompanha por um livro encontrado na casa do pai morto - e o ano de 1999, presente de Juliana, iminência de um novo milênio que projetava planos de futuro.
No centro das memórias de João, Juliana descobre sua amizade, na prisão, com Zaqueu (César Mello) - um jovem evangélico preso por engano e que compartilha todo o calvário do guerrilheiro, barbaramente torturado e resistindo a entregar as informações de seu grupo. Alguns dos momentos mais densos e bonitos do filme estão nestas conversas entre os dois prisioneiros, que têm uma fé diferente, um em Deus, outro na revolução, mas que humanamente se encontram e são capazes de empatia - um tema urgente num país e num mundo polarizados como os nossos.
O ator Johnny Massaro contou, na coletiva do filme no Festival de Gramado 2022, que o ajudaram na composição do personagem suas conversas com José Genoíno, ex-guerrilheiro no Araguaia. Em conversa comigo, logo após a sessão do filme, que ele assistiu em Gramado, Genoíno contou que estavam na tela situações que viveu - como o episódio de sede intensa que ele sentia, preso, na cela, depois de uma sessão de tortura, reproduzido no filme. Outro ex-militante da guerrilha que assistiu ao filme e ao debate em Gramado foi o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, que militou no MR-8.
No debate, Juca comentou que, mesmo tendo integrado a guerrilha urbana, não a rural, ele se identificou com o filme e o elogiou. “Vários filmes sobre os militantes da luta armada os caricaturizaram, como se eles tivessem sido pessoas que estavam ali, sem ter nada pra fazer e que pegaram em armas, assim, por nada”. Ele não viu este defeito em O Pastor e o Guerrilheiro e afirmou ainda que o filme “nos lembra de que deveríamos ter punido os torturadores”.
O produtor Nilson Rodrigues completou: “Fizemos muito poucos filmes sobre a ditadura no Brasil”. Ele comentou que a própria história pessoal da militância de Juca Ferreira o interessa muito e ele está esperando um dia poder filmá-la.
Chama a atenção no filme o espaço dedicado aos cultos evangélicos, conduzidos pelo Zaqueu pós-prisão, numa comunidade que ignora seu passado. O diretor Belmonte destacou ter se preocupado em retratar os evangélicos “de uma forma menos vertical, tentando ser fiel e respeitoso com as contradições que também existem entre eles”.
O produtor Nilson observou que, em 1999, ano da história, “o neopentecostalismo ocupava um espaço muito diferente”. Destacou que religiões nessa linha surgiram no Brasil em meados dos anos 1970 e hoje “têm um peso muito diferente, é um fenômeno cultural gigantesco”.
Juca Ferreira lembrou que Leonel Brizola costumava dizer que a chegada dos neopentecostais no Brasil obedecia a um plano do Departamento de Estado norte-americano e que, depois de se enraizarem na sociedade, eles entrariam na política - “ e aí o Brasil estaria perdido”.
