Meninas Malvadas se encontra com Divino Amor em Medusa, segundo longa da cineasta carioca Anita Rocha da Silveira (Mate-me por Favor). O longa, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes, foi o vencedor do Festival do Rio de 2021, e toca em questões urgentes do mundo contemporâneo, ligando fundamentalismo religioso (especialmente entre jovens) e redes sociais, banhado numa luz de neon e um verniz pop muito bem empregados.
Desde sua abertura ao som de Cities in Dust, de Siouxsie and the Banshees, após um prólogo que acena para o terror, o filme pulsa com uma energia que nunca se esvai, mesmo que a narrativa cambaleie um pouco de vez em quando. Esse é o grande mérito de Rocha da Silveira: impregnar sua obra de uma força tão ímpar que o público pode fazer vista grossa às suas pequenas imperfeições.
Repleto de ideias e estilo, Medusa é um canal de comunicação bem direto com o público jovem ao falar de temas caros ao coração desta faixa etária. A desilusão do presente talvez tenha encontrado neles a presa fácil para um apelo religioso, calcado na beleza e fama fugaz da internet. Misturando um discurso de coach meritocrático neoliberal com a promessa da redenção, o evangelismo específico para jovens se veste de descolado, se joga no tiktok e atrai fieis que ouvem exatamente o que queriam ouvir.
Um coral pop, formado por belas jovens banhadas em neon, canta num templo frases como: “Quando o apocalipse acontecer, eu vou sobreviver”, ou “Não vou nunca mais me preocupar, serei bela, recatada e do lar”. Como se vê, estamos no terreno de uma sátira que fala claro ao Brasil contemporâneo, marcado por escolhas políticas e pessoais fortemente marcadas pela religião. As mentes dos e das mais jovens se mostram um campo fértil para o fundamentalismo prosperar e o filme explora isso muito bem.
O roteiro, também assinado pela diretora, percorre caminhos até entrar numa espécie de labirinto, no qual se perde algumas vezes mas, ainda assim, se mostra sempre interessante. Clarissa (Bruna G) se muda para a casa da tia para terminar o ensino médio. Sua prima, Mariana (Mari Oliveira), tem a intenção de a resgatar das coisas mundanas. Juntamente com suas amigas, todas extremamente religiosas e vaidosas, elas acolhem a novata, em especial, Michele (Lara Tremouroux, premiada como atriz coadjuvante no Festival do Rio de 2021), uma espécie de Regina George, a famosa líder do grupinho em Meninas Malvadas, só que fundamentalista.
As jovens do filme também tem os seus “varões valorosos”, para usar a expressão de uma famosa blogueira que satiriza a juventude evangélica na internet. Rapazes de um exército de Cristo, repletos de ideias machistas e opressoras.
Custa um pouco à narrativa se encontrar, é como se o visual esmerado do filme fosse seu interesse primário. As personagens são propositalmente estereotipadas: meninas de classe média e média alta, jovens princesas de um mundo privilegiado, marcado pela fama na rede social. Numa das melhores cenas, Michele mostra “dez maneiras de tirar uma selfie para glória de Deus”. O humor ácido é um dos pontos mais fortes no roteiro. Além disso, o grupo de garotas, cobrindo o rosto com uma máscara, ataca, à noite, jovens que consideram pecadoras.
Numa dessas expurgações, a vítima revida e Mariana acaba com uma cicatriz no rosto. É a partir dessa cena que Medusa se encontra. A jovem enfermeira perde a autoestima o emprego numa clínica de estética. Passa a cobrir com o cabelo o lado marcado para tentar esconder a cicatriz. Ela também começa a procurar uma jovem que se tornou uma espécie de lenda, Melissa Garcia (Bruna Linzmeyer), uma celebridade local que ficou ainda mais famosa após ser atacada com fogo depois de fazer uma cena de nudez num filme. Nunca mais se soube dela.
Medusa é, ao fim, um filme potente que diz muito sobre o Brasil de hoje, em especial sobre uma juventude em busca de rumos e facilmente cooptável. É um comentário preciso e cinematograficamente apurado sobre os dias de hoje e o que o futuro pode nos reservar.
