Polêmicos e incompreendidos em suas épocas, livro e filme Psicopata Americano são um retrato ácido dos anos de 1980, da cultura yuppie que marcou uma das primeiras gerações a se beneficiar completamente do neoliberalismo da década anterior. A violência gráfica do romance – com um tom menor do que no filme, mas que ainda assim lhe causou problemas – é delírio do protagonista, Patrick Bateman (Christian Bale), como fica bem claro no longa.
A pergunta que as obras levantam é: os yuppies são tão egocêntricos que são incapazes de perceber um serial killer convivendo com eles? Quase ninguém guarda o nome de ninguém, e chamam uns aos outros por qualquer nome, o que pode ser o álibi perfeito para o matador. No entanto, sabem muito bem só de olhar as marcas de roupas, eletrônicos ou objetos de luxo que cada um possui. Essa nomeação exagerada de marcas pode parecer cansativa no livro, mas Ellis tem um propósito nisso.
A sociedade do consumo é exacerbada aqui, pois é a identidade deles. Eles são o que consomem, e a identidade de Bateman é um comercial com roupas, lugares, cosméticos, cds e fitas de vídeo. As relações pessoais, mais do que marcadas por dinheiro, são mediadas por mercadorias – uma forma para além do dinheiro.
Tanto o romancista Brett Easton Ellis quanto a roteirista e diretora Mary Harron estão no terreno da sátira e, em certa medida, da fantasia. E a incompreensão dessas dimensões foi o que incomodou tanta gente. A misoginia do filme não é gratuita, é crítica – Bateman correndo nu com uma motosserra atrás de uma prostituta não é para ser tomado como literal.
Bateman & cia são frutos do capitalismo tardio, da pós-modernidade. Filhos de donos, cresceram sob o signo do privilégio e meritocracia. A masculinidade tóxica – algo nomeado décadas depois da criação do personagem – é desconstruída aqui por meio de uma figura com a qual não simpatizamos. O romancista e diretora fazem um retrato certeiro de um geração, em obras muito debatidas, mas, possivelmente, pelos motivos errados.
