Jafar Panahi estava na prisão quando este seu filme, Sem Ursos, foi exibido em competição no Festival de Veneza. O premiado cineasta, que já venceu um Leão de Ouro em 2000 pelo impactante O Círculo, mais uma vez é personagem de seu filme, que sobrepõe narrativas ao mesclar os acontecimentos que o envolvem numa cidadezinha na fronteira turca e as turbulências de um filme sendo realizado dentro do filme - em que Jafar dirige remotamente, com o auxílio no set de seu filho, Reza, outro personagem da história.
Deste entrelaçamento das fronteiras entre ficção e realidade, Panahi constroi seu questionamento das contradições mais profundas de seu país, como a persistência da superstição baseada em costumes ancestrais - em que o patriarcalismo sempre exerce um peso formidável - e o autoritarismo estatal, manifestado por uma polícia vigilante sobre as pessoas mas inerte frente ao contrabando e outros crimes bem mais reais do que as divergências de opinião.
No centro da história dentro da história, há casais, amores proibidos, vizinhos xeretas, discussões sobre moralidade, tudo isso de uma maneira orgânica, que reproduz um ambiente em que o próprio cineasta-personagem se insere e entra em conflito. E sofre por tudo aquilo que a racionalidade e o bom senso não conseguem mudar.
Mesmo sendo alvo de uma perseguição constante por todos estes anos, que já o levaram à prisão e a uma greve de fome, o cineasta iraniano mantém intacta sua veemência e paixão pelo cinema e tira o máximo proveito de suas restritas condições de produção. Falando de sua aldeia, ele fala do mundo. E o último plano de Sem Ursos torna-se, com esta absurda perseguição aos artistas iranianos, como ele, um grito inconformado pela liberdade. Como imaginar que este homem tão sensível, talentoso e valente possa ter sido condenado a seis anos de cadeia por vagas acusações conspiratórias contra o Estado teocrático em que vive?
