04/07/2026
Drama

Mares do desterro

Divina e Serena, irmãs gêmeas, eram inseparáveis. Quando Serena desaparece repentinamente, a estrutura familiar é abalada. O pai, Joaquim, muda a casa familiar para uma casa isolada, onde Divina assume a maior parte das tarefas, a mãe passa o tempo rezando, um irmão, Mariano, vive confinado, e o pai vai e vem, à procura de Serena. O isolamento do grupo esconde o fantasma do incesto.

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Partindo de um roteiro original de Amilcar M. Claro, o filme de Sandra Alves, Mares do Desterro, constrói com rigor o drama de uma pequena família de pescadores isolada numa praia. A partir da fotografia em preto-e-branco, com câmera e montagem também assinadas pela diretora, instala-se um ambiente claustrofóbico em que a proximidade do mar não abre possibilidade de navegar.
 
O mar parece ter sido o último caminho tomado por Serena (Débora Ingrid), uma das irmãs gêmeas desta pequena família de pescadores tomada por um atavismo que domina todas as emoções. O isolamento, que é resultado do desaparecimento de Serena, apenas reforça a opressão que a todos impõe a figura do pai, Joaquim (Luciano Bortoluzzi), esteja ou não por perto. 
 
Nos últimos tempos, ele não pára muito na casa, percorrendo as praias a cavalo, à procura da filha desaparecida, determinando uma espécie de viuvez à mulher, Luzia (Georgette Fadel). Quando reaparece, Joaquim reage violentamente às rezas da mulher por Serena, resgatando um arcabouço de crendices que igualmente assombra este pequeno mundo.
 
A única que esboça uma reação a tudo isso é a gêmea restante, Divina (também Débora Ingrid), enfrentando a agressividade do pai e a passividade da mãe contra o inexplicável confinamento de outro irmão, Mariano (Ianô Hak), trancado e tratado como se bicho fosse. O fantasma do incesto ronda este ambiente segregado em si mesmo. 
Contando com poucos diálogos, muitos ruídos e um apoio poderoso na fotografia que reconstitui o ambiente nos mínimos detalhes, Mares do Desterro afasta-se do naturalismo em prol de um expressionismo simbólico, instaurando um clima atemporal, primitivo ao reduzir ao mínimo as movimentações de seus personagens.Nessa cabana longe de tudo, o tempo parece não entrar. Será preciso uma explosão para que as coisas finalmente saiam do lugar.
 
Por suas opções estéticas, o filme tem um andamento um tanto teatral, na condução dos personagens pelo espaço e também nos seus duelos verbais. Essas escolhas travam um pouco o andamento da ação, que exige do espectador um compromisso especial na adesão à história. 
 
Voltando a Amilcar M. Claro, o notável colaborador nos roteiros de O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Bebenco, Sonho de Valsa, de Ana Carolina, e de cinco dos 11 filmes de Roberto Santos - a quem dedicou o documentário Roberto -, além de várias assistências de direção, como A Casa de Alice, de Chico Teixeira, nunca será demais lembrar a figura deste incansável trabalhador do cinema brasileiro, morto em 2015.
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