04/07/2026
Drama Comédia

Derrapada

Samuca gosta de andar de skate e desenhar. Durante a ocupação das escolas por secundaristas, em 2016, ele começa a namorar Alicia. Um tempo depois, ela se descobre grávida e ele terá de enfrentar a mesma situação que sua própria mãe, que o teve ainda na adolescência.

post-ex_7
Partindo do romance Slam, do inglês Nick Hornby, Derrapada traz uma especificidade brasileira à história de gravidez na adolescência contada pelo ponto de vista do jovem pai. Dirigido por Pedro Amorim, o filme usa sagazmente a ocupação das escolas secundárias, em 2016, como o ponto de partida para a história e o cenário para que o protagonista, Samuca (Matheus Costa), conheça seu primeiro amor, Alicia (Heslaine Vieira).
 
Eles não podiam ser mais diferentes. Ela é engajada nas lutas sociais, ele só quer saber de andar de skate e desenhar. Mas o encontro entre os dois desperta nele um gosto por participar da ocupação da escola onde estudam – especialmente para estar com ela. A garota é filha de um casal de advogados bem-sucedidos (Luis Miranda e Jussara Mathias), ele é filho de uma boleira, Melina (Nanda Costa), que ficou grávida na adolescência, por isso, teve um filho muito jovem e a relação deles é inusitadamente próxima – é mais como se fossem dois irmãos do que mãe e filho.
 
O roteiro, assinado por Amorim, Izabella Faya e Ana Pacheco, constrói muito bem essa relação de proximidade e cumplicidade. Nanda está excelente como a jovem mãe bonita e descolada, que ainda é objeto do desejo de amigos de Samuca. Há muita verdade na interpretação dela, assim como na de Matheus.
 
O filme é narrado do ponto de vista do rapaz, o que traz algumas implicações pelo olhar masculino e imaturo do personagem. O namoro com Alicia logo deslancha, não custa muito os dois estão tendo relações sexuais, e não é surpresa que ela irá engravidar. Como o filme delineia desde o começo, a jovem é muito mais madura e pé no chão do que o protagonista. E a gravidez desencadeia uma nova crise, não só na relação entre eles, que já não estava boa, mas na relação da dupla com os respectivos pais.
 
Melina fica inconformada que Matheus “tenha cometido o mesmo erro que ela”, e o filme é brutalmente sincero na discussão entre os dois sobre gravidez na adolescência. Alicia também tem a sorte de ter uma família compreensíva. Embora seu pai seja bastante severo, percebe que não tem jeito e aceita a gravidez.
 
Ser narrado por Matheus é um acerto e uma questão para Derrapada. O filme consegue expor os acertos e limitações do personagem mas, ao mesmo tempo, parece aderir completamente à sua visão de mundo. Mesmo tentando ser diferente de seu pai (Augusto Madeira), um ausente, Matheus não evita alguns pontos que fazem dele uma adolescente, às vezes, infantilizado. De qualquer forma, há sentido nisso, pois esse é um filme sobre seu processo de amadurecimento. Por outro lado, muitas vezes, Alicia surge como uma personagem mais interessante, por isso, sentimos falta da própria voz dela.
post