Vencedor de seis prêmios César, inclusive melhor filme e direção, A Noite do dia 12 distingue-se, em primeiro lugar, como um policial que desmonta os habituais clichês do gênero. Há um crime chocante logo de início - e mais chocante ainda é que tenha se inspirado num caso real - e a história se desenrola em torno das investigações, como costuma acontecer. Mas o diretor Dominik Moll se afasta da tradicional busca de grandes revelações para compor uma narrativa que discute com sutileza a misoginia e o machismo, partindo de um feminicídio.
Evidentemente, o que o capitão Yohan (Bastien Bouillon) e sua equipe procuram é identificar o assassino da jovem Clara (Lula Cotton-Frapier), que morreu queimada. Todos os policiais são homens, assim como os suspeitos, estabelecendo este universo em que a própria Clara também está sendo julgada em retrospecto. Afinal, a moça não parece preencher o perfil da “boa vítima”, já que gostava de bad boys.
A narrativa também se desvia do erro óbvio que seria meramente satanizar os homens de uma maneira superficial. Os policiais são bons profissionais, dedicados e seguidores de regras. Desejam sinceramente esclarecer o caso, empenham-se por isso. Mas o filme mostra como o machismo estrutural que se esconde em cada um pode ser um impedimento a que detetem os sinais que poderiam identificar o criminoso.
O fato de que qualquer um dos suspeitos poderia ser o culpado, neste contexto, também diz muito sobre o tipo de sociedade em que ainda vivemos, em que uma moça não pode dar-se ao luxo de ser livre sem correr o risco de ser queimada como uma bruxa, repetindo uma sinistra tradição de tempos primitivos.
Por outro lado, quando todos poderiam ter sido os assassinos, de algum modo, todos a mataram - com o abandono, o desprezo e até, como fez um rapper que a namorou, sentindo-se autorizado, em nome da necessidade de expressão de seu despeito, a sugerir literalmente a queima da moça, que afinal se concretiza.
As sutilezas se afirmam na definição de pelo menos dois personagens marcantes, o capitão Yohan e seu assistente, Marceau (Bouli Lanners), ambos merecidamente premiados cada um com seu César. Yohan sintetiza uma justa inquietação por este crime irresolvido, que o assombra e angustia, carregando nele um mal-estar que deveria estar impregnado em toda a sociedade, se é que algum dia se desejará sinceramente superar a crônica satanização da figura feminina que está na base de toda violência contra as mulheres.
O próprio Yohan expressa este desconforto quando é contatado por uma juíza interessada em prosseguir no caso: “Há algo errado entre homens e mulheres”. E só na segunda parte da história haverá uma policial feminina em sua equipe, capaz de olhar a situação por outros ângulos - mas será que não é tarde demais para encontrar as pistas?
Por toda esta riqueza de camadas, A noite do dia 12 é uma grata surpresa, um trabalho empenhado, que venceu também os Césares de melhor som e roteiro adaptado, a partir do livro de Pauline Guéna. A autora acompanhou por um ano uma equipe policial em Versalhes, optando por focalizar um caso real. No filme, a ação é transferida para a cidade de Grenoble.
