17/07/2026
Documentário

Ithaka - A luta de Assange

Pai do jornalista Julian Assange, criador do Wikileaks, John Shipton abandonou sua rotina e sua casa na Austrália para mover uma campanha mundial em favor da libertação do filho - que se encontra desde 2019 numa prisão de segurança máxima na Inglaterra, ameaçado de ser extraditado para os EUA pela divulgação de documentos secretos das guerras do Afeganistão e do Iraque.

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Há personagens que, independentemente de suas qualidades e defeitos, definem um tempo e uma luta. Um deles é, sem dúvida, o jornalista e ativista australiano Julian Assange. A luta: a liberdade de expressão. O documentário Ithaka, a Luta de Assange, de Ben Lawrence, é uma espécie de diário da grande e atribulada viagem empreendida pelo pai de Assange, John Shipton, para libertar seu filho - que se encontra, desde 2019, na prisão britânica de segurança máxima de Belmarsh, depois de 7 anos refugiado na embaixada londrina do Equador.
 
A escolha de Shipton como protagonista é perfeita - é impossível não simpatizar com a figura ao mesmo tempo frágil e firme deste sereno ex-construtor australiano de 76 anos que abandonou tudo para correr o mundo em defesa do filho - o fundador do Wikileaks em 2006 e que se tornou o centro de perseguições legais e puro lawfare por ter divulgado milhares de documentos secretos norte-americanos referentes às guerras do Afeganistão e do Iraque. Por conta disso, os EUA estão pedindo judicialmente sua extradição, acusando-o de espionagem. Caso seja concedida, a expectativa é de que Assange possa receber no país que se vangloria de uma Primeira Emenda constitucional baseada na liberdade de expressão uma pena de até 175 anos de prisão, possivelmente cumprida no presídio de Supermax, no Colorado, tido como o de regime disciplinar mais implacável do mundo.
 
O próprio Assange aparece em diversas imagens de arquivo, dentro da embaixada equatoriana e também nas ligações em vídeo nas quais se comunica com sua família - além do pai, com sua mulher, Stella, que é uma de suas advogadas, e seus filhos, Gabriel, de 6 anos, e Max, de 4. Tudo isso humaniza a figura do jornalista, eventualmente tido como polêmico, mas indiscutivelmente importante na exposição de crimes de guerra das potências mundiais, ao lado de outros ativistas, como a ex-soldado Chelsea Manning e o ex-funcionário da CIA Edward Snowden.
 
O filme percorre várias cidades do mundo onde ocorrem manifestações a favor da libertação de Assange, além de entrevistar figuras ligadas aos direitos humanos, como o professor de Direito Nils Melzer, que atua para a ONU e enuncia uma das melhores frases do documentário: “A tortura precisa ser pública para intimidar”. E, para ele, Assange está sendo objeto de tortura por todas as restrições de que está sendo vítima, a maior delas, a prisão. Certamente, Assange foi transformado  num exemplo que visa desestimular eventuais novos whistleblowers, depois que Edward Snowden, que igualmente expôs informações secretas sobre seu país, asilou-se na Rússia, permanecendo fora do alcance.
 
O documentário acompanha vários lances do primeiro julgamento de Assange, que terminou com a não-concessão da extradição aos EUA com base em sua condição precária de saúde - mas o governo Joe Biden apelou e o caso se encontra em aberto.
 
De todo modo, o filme de Ben Lawrence, que é produzido pelo meio-irmão de Julian Assange, Gabriel Shipton, dá boa conta sobre a saga deste personagem crucial de nossos tempos, através da atuação incansável de seu pai, que talvez jamais conhecêssemos não fosse a perseguição ao filho, e em quem identificamos não só a origem do semblante como da firmeza de Julian. 
 
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