20/02/2024
Drama

Três tigres tristes

São Paulo está fechada no lockdown, mas três jovens não se intimidam e andam pelas ruas do centro da cidade, conversam sobre suas vidas, angústias, esperanças e a possibilidade de encontrar um amor.

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A filmografia de Gustavo Vinagre é sempre surpreendente, pois ele parece nunca se repetir, embora seus filmes estejam sempre ligados a temas próximos – os enfrentamentos e alegrias das pessoas LGBTQUIA+. Três tigres tristes (tente falar o título rápido) novamente está nessa seara, mas avançando talvez ainda mais numa discussão.

Ao contrário da maioria dos filmes sobre pandemia, o longa não está fechado no lockdown, pelo contrário, ele sai às ruas com seus personagens, numa São Paulo triste, desolada e marcada pelas máscaras no rosto. É um efeito bem interessante, pois a essa altura pode causar algum estranhamento, despertando uma memória recente que poucas pessoas estão dispostas a encarar.

A questão é que, no roteiro assinado pelo diretor e Tainá Muhringer, um momento extremo como esse leva a indagações sobre quem somos e onde estamos – exatamente elementos constitutivos das identidades, outra questão cara aos filmes do cinema queer. Dessa conjunção, o longa acompanha um trio de jovens pelas ruas de São Paulo.

“Respirar um pouco de poluição”, como diz um dos personagens, representa sair de casa num momento em que isso era um risco. Sem nunca cair numa abordagem trágica ou mesmo vitimista, Três tigres tristes é uma comédia meio agridoce sobre ser quem queremos ser em tempos de apocalipse. Sua delicadeza em abordar os personagens e o momento está ligada à circulação dos afetos e às dinâmicas de amizade e amor num momento como esse. 

Ao mesmo tempo que mantém o pé na realidade crua de um passado que se prolonga até o presente, o filme também transita na chave da fantasia – especialmente numa cena envolvendo uma mãe preconceituosa e seu filho pré-adolescente. É um momento antológico. Ou mesmo a presença de Gilda Nomace, que também parece pertencer a um mundo que não é o nosso.

Os temas que se agregam aqui são típicos da juventude do presente, fluida e em busca de sua própria representação. Uma minoria financeiramente desprivilegiada, composta por um jovem que faz shows na internet para se sustentar, sua amiga transexual que vai prestar o ENEM, e o sobrinho dele, HIV positivo, que mora numa cidade pequena e precisa se tratar em outra, para evitar sofrer preconceito. Vinagre tem um olhar muito carinho e generoso para essas figuras – e outros, outras e outres que cercam o trio. É nisso que se concentra a graça e potência do filme: na possibilidade de olhar para o semelhante e perceber que é semelhante, mesmo parecendo não o ser. 

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