Como se valendo do realismo mágico, esse modo de narrar tão latino-americano, o cineasta Pedro Serrano constrói um mosaico a partir da obra de Adoniran Barbosa em seu Saudosa Maloca. A menção à música do título é apenas uma espécie de chave que guia a narrativa, mas a ela se acoplam personagens e motivos vindos diretamente de outras composições do sambista, resultando num painel vasto, respeitoso e, acima de tudo, lúdico.
A história da Saudosa Maloca é famosa, e, conforme cantada na música, o narrador, e seus amigos Joca e Mato Grosso viviam nessa lugar até que foram expulsos para a construção a um “adifício arto”. Serrano, assinando o roteiro com Rubens Marinelli e Guilherme Quintella, coloca ao centro exatamente a disputa pelo terreno. Num lance que é, ao mesmo tempo, extremamente, atemporal, mas muito contemporâneo. Enfim, o filme fala, claramente, sobre o processo de gentrificação de São Paulo.
O narrador (Paulo Miklos), Joca (Gustavo Machado) e Mato Grosso (Gero Camilo) vivem cercados por outros membros do universo adoniraniano. Mané (Izak Dahora) está em busca de sua Inês, que “saiu dizendo que ia comprar um pavio pro lampião”. Sorumbático, ele anda de um lado para outro, em busca de sua amada “na Central, procurei no Hospital e no xadrez”.
A principal personagem feminina, Iracema (Leilah Moreno), também, é claro, vem de uma música de Adoniran. Disputada por Joca e Mato Grosso, ela é uma mulher independente. Garçonete, mas com talento para a moda, ela tem perspectiva promissora, porém, que conhece a música sabe o destino da jovem.
O que é mais interessante é como as peças se encaixam, como a organização da narrativa não depende exclusivamente do diálogo com o universo do sambista, mas como uma coisa leva a outra. Há o Arnesto (Zemanuel Piñero), aquele que mora no Brás e convidou o trio para um samba, mas quando chegaram, ele não estava em casa. Isso serve como desculpa para um novo rumo para a trama.
De vez em quando, uma música ou personagem invade a outra. Joca, por exemplo, é aquele filho único do Trem das Onze, cuja sua mãe (Noemi Marinho) não dorme enquanto ele não chegar. Ela também uma personagem, cuja trajetória será ajudar Iracema.
Os deliciosos malabarismos narrativos são trazidos numa bela embalagem que evoca o passado sem se subjugar a ele. A fotografia de Lito Mendes da Rocha e a direção de arte de Claudia Terçarolli ressaltam o diálogo de como o tempo da Saudosa Maloca ainda é o nosso. Filmado na Vila Itororó (SP), um antigo cortiço que prima por sua arquitetura, e se tornou um centro cultural ao fim de muita luta, o filme celebra não apenas a música de Adoniran, mas os bravos que resistem ao processo da modernização desenfreada que quase custou, entre outras coisas, a bela Vila Itororó.
