Há muito que o cineasta e roteirista belga Bas Devos pratica um cinema de observação, que parece querer pegar os espectadores pela mão e reensiná-los a olhar com calma o cotidiano à sua volta. Ele segue este preceito à risca neste novo filme, Here, mais uma vez ambientado em Bruxelas e trazendo no elenco nomes que estiveram a bordo de Trópico Fantasma (2019), seu inspirado filme anterior.
Num filme em que, mais uma vez, se aposta muito nas imagens - repetindo a parceria com o diretor de fotografia Grimm Vandekerckhove -, dispensando diálogos em sequências inteiras, o protagonista é Stefan (Stefan Gota), um trabalhador romeno do ramo da construção. Ele e os companheiros estão partindo de férias mas, para ele, a parada no trabalho é um pouco mais: ele pensa em retornar para a Romênia talvez definitivamente.
A interação dos homens e mulheres imigrantes a esse ambiente urbano povoado de prédios em construção e paisagens que são tudo, menos turísticas, está mais uma vez no centro das atenções. Insone, Stefan vaga pelas ruas de Bruxelas, descobrindo segredos como um jardim comunitário em pleno vigor - e cuja guardiã é interpretada por Saadia Bentaïeb, a magnífica protagonista de Trópico Fantasma. Sintomaticamente, Stefan traz sementes no bolso, que ele desconhece, mas também recusa plantá-las no jardim comunitário, como simbolicamente não querendo deixar raízes nessa cidade que ele diz que é sua casa mas, no fundo, lhe permanece estranha. Ele não se conecta inteiramente com tudo o que vê. Em seu olhar inquieto, há uma procura que não se realiza.
Enquanto se dedica a um peculiar ritual de despedida, levando uma embalagem da sopa que preparou para os amigos que está deixando, como o mecânico Mihai (Teodor Corban), Stefan conhece Shuxiu (Lyio Gong), uma belgo-chinesa especializada em microplantas, em musgos. Ela é outra criatura deste universo que tem os olhos voltados para toda uma vida invisível, que passa despercebida aos transeuntes apressados. E há pouca coisa mais reveladora do que o passeio empreendido por ela e Stefan num bosque, onde ele se inteira da riqueza dessa vida minúscula que pulsa debaixo das árvores, tão perto do chão.
Desta forma, Here é o tipo do filme sobre o qual se pode dizer que é sobre tudo, sobre muito pouco e que abre tantas janelas para tantas coisas. E Bas Devos é o tipo do diretor que sabe abri-las. O filme venceu, merecidamente, dois prêmios na seção Encounters do Festival de Berlim 2023, melhor filme e também o prêmio Fipresci.
