“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo”. Assim começa o romance mexicano clássico de Juan Rulfo, publicado em 1955. E assim começa a sua nova adaptação belamente fotografada, mas, para o mal, excessivamente respeitosa do original, dirigida por Rodrigo Prieto, premiado diretor de fotografia de filmes como Barbie, Assassinos da Lua das Flores e 21 Gramas. Ele estreia na direção de longas com esse filme.
É, de qualquer forma, de tirar o chapéu (mexicano, de preferência) a Prieto por sua coragem. O romance é uma narrativa surreal em que vivos e mortos estão lado a lado, e o leitor nunca sabe quem está em qual estado. A beleza da prosa de Rulfo vem exatamente de seu mergulho na tradição da cultura mexicana em lidar com a morte de forma muito particular.
O filme segue de perto a narrativa do livro, com roteiro assinado por Mateo Gil, acompanhando Juan Preciado (Tenoch Huerta) chegando a Comala à procura do pai, Pedro (Manuel García-Rulfo, sobrinho-neto do autor do romance). As notícias para o rapaz, que veio em busca de tudo que lhe é de direito, não são boas. O patriarca era uma espécie de déspota local, dominando, oprimindo e ameaçando a todos, e o fato de que todo mundo ali é filho bastardo dele talvez não seja muito positivo na hora da divisão da herança.
Pedro Páramo segue a forma de realismo mágico do romance indo e vindo no tempo sem muito avisar ao colocar Preciado numa casa onde revive as memórias de seu pai, numa história marcada pela violência. Ele encontra figuras como o padre Renteria (Roberto Sosa), um homem que tentou combinar o sagrado com o profano o necessário para viver em Comala, onde sua sobrinha, aliás, foi violentada por capangas de Páramo.
Prieto, como é de se esperar, enche a tela com um visual impressionante, marcado por tons de marrom-terra e a construção precisa de cada quadro. E, enquanto a narrativa pode ser complicada, os temas aqui, como em Rulfo, estão bem claros, ligados à construção de uma sociedade marcada pelo patriarcado e a religião.
Páramo é um homem de inúmeros pecados que confia no perdão irrestrito da igreja. Um estuprador é perdoado aos olhos de Deus, mas sua vítima que se suicidou é condenada ao sofrimento eterno. É uma hipocrisia que se alinha muito bem com a mentalidade do personagem-título. E, nesse sentido, num mundo marcado por fundamentalismos religiosos, Pedro Páramo com todos seus floreios narrativos resiste à prova do tempo, revelando-se atual e relevante.
