Na obra do diretor Lírio Ferreira, desde seu trabalho de estreia, Baile Perfumado (1996), nunca faltou a marca da inquietação. E mesmo que Serra das Almas não seja um roteiro assinado por ele, o filme tem essa identidade, no frenesi de sua temática, em sua mistura de gêneros, em sua ironia colada com a violência, compondo um comentário sobre o aqui, o agora e aquilo que é permanentemente difícil mudar no País, como a desigualdade social.
A ação já começa na maior voltagem, na fuga frenética de uma van ocupada por sequestradores e vítimas, a caminho de um lugar que parece fora do mapa: a remota Serra das Almas, no Agreste pernambucano. Os dois sequestradores, Gislano (Ravel Andrade) e Charles (David Santos), levam para lá suas vítimas, buscando esconderijo no sítio de um amigo de infância, Ricardo (Jorge Neto), que ali vive com sua mulher, Vera (Mari Oliveira). O filme começa assim, sem apresentação dos personagens, voltando atrás no tempo para flashbacks que aos poucos vão inserindo cada um na trama, que mistura políticos corruptos, um roubo de jóias e jornalistas tentando dar um furo de reportagem.
A jornalista é Samanta (Julia Stockler), capturada junto com uma estagiária (Pally Siqueira), além de outro homem, pego por acaso no caminho, Gustavo (Vertin Moura). As duas são rapidamente trancadas num quartinho da casa, sendo ao outro refém, inexplicavelmente, permitido permanecer solto por ali. A abordagem caminha para criar uma estranheza e também uma dinâmica entre esses personagens, convivendo atabalhoadamente ao longo de dias que parecem escorrer sem uma saída à vista. O que estão fazendo ali, fora esconder-se? Qual é o plano? O que vão fazer depois?
Nesse desmonte de expectativas, em que o espectador é constantemente desafiado a preencher as lacunas a seu modo, essa dinâmica instável que vai se estabelecendo é o que mais interessa ao diretor para criar tensão e eventualmente empatia. Há uma divisão de gêneros pairando nessa casa e isso se torna mais importante à medida que a história progride. Este é um dos aspectos interessantes a observar.
Pode-se ler no enredo também um esboço de quanto esta masculinidade violenta é frágil, representando tipos excluídos da sociedade, do andar de baixo, por assim dizer. Os três amigos viveram sempre naquele sertão, longe dos grandes centros e de oportunidades educacionais e profissionais, flertando com uma pequena criminalidade que poderia, quem sabe, projetar um futuro fora dali. Ricardo acabou ficando no sítio que pertenceu ao avô, inebriado por uma vaga lenda de que haveria ali um tesouro enterrado. Mas o avô cavou, cavou e nunca encontrou. Gislano e Charles rumaram para a capital, prestando serviços a um político corrupto, o que os envolveu no roubo das jóias.
Se de um lado o filme é um comentário sobre a falta de rumo destes deserdados da sorte, numa realidade altamente desigual, também não se esforça para absolvê-los de suas escolhas violentas e, ultimamente, sem saída. Mas eles, talvez, sejam um pouco mais bem delineados do que a jornalista Samanta, cuja própria ansiedade em desvendar a trama da corrupção parece perigosamente próxima da ingenuidade - e a maneira como ela se coloca para flagrar o caso das jóias é a maior prova dessa falta de verossimilhança. Menos desenvolvida ainda é a personagem da jovem estagiária, filha de um advogado com quem Samanta tem uma relação complicada (Tavinho Teixeira).
Não é que falte interesse a inúmeras das situações do roteiro, assinado pelo trio Paulo Fontenelle, Audemir Leuzinger e Maria Clara Escobar. Mas o seu desenvolvimento caminha, inevitavelmente, para um beco sem saída, que não é tão radical quanto Propriedade, de Daniel Bandeira, mas também não evita inconsistências e alguns excessos - como o surto de Charles, num momento que parece invocar Apocalipse Now.
