03/07/2026
Histórico Drama

Bolero, a Melodia Eterna

Compositor dedicado e respeitado, Maurice Ravel não tem sorte nas premiações em seu tempo. Quando a bailarina russa Ida Rubinstein lhe encomenda a música para um balé, ele não imagina que esta se tornará a obra mais famosa de sua vida e lhe trará uma consagração mundial: o "Bolero". Na Filmelier +.

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Não há pessoa na face da Terra, mesmo sem ter uma mínima conexão com a música, que já não tenha ouvido ao menos uma versão de Bolero, a hipnótica composição que o compositor Maurice Ravel (1875-1937) entregou ao mundo em 1928. Criada sob encomenda como tema de um balé, à sua revelia vampirizou a fama de seu autor em torno dela, em torno dela, por mais que ele insistentemente afirmasse que não a considerava mais do que trivial.

Interpretado com intensidade e paixão pelo ator Raphaël Personnaz, o compositor é retratado a partir de 1903, ano em que ele é, mais uma vez, rejeitado numa premiação e sofre um acidente, caindo de uma janela - o que ele depois assegura à sua mãe (Anne Alvaro) não ter sido uma tentativa de suicídio. Ele apenas procurava ouvir melhor o vento. 

De todo modo, o filme dirigido por Anne Fontaine, que toma assumidamente algumas liberdades quanto à biografia do famoso compositor, enfatiza seu temperamento ao mesmo tempo sensível e vulcânico, dado a explosões numa vida, de modo geral, solitária e discreta. Ele parecia viver apenas para sua arte, dedicando-se às suas composições, num processo criativo que, muitas vezes, o isolava numa espécie de bloqueio, do qual partia repentinamente para um incontível derramamento de notas bem colocadas, que produziram, além do incontornável Bolero, Pavana para uma Infanta Defunta, La Valse, Concerto para a Mão Esquerda e outras composições notáveis.

O enredo dedica boa parte à composição de Bolero, que foi o resultado da encomenda, para um balé, pela bailarina russa Ida Rubinstein (Jeanne Balibar). Para chegar à obra, Ravel enfrentou, como era seu hábito, uma espécie de inferno interior. Ele esperava que a música nascesse dentro dele e só então começava a anotar as notas. Esse processo demorou meses, causando temor em Ida de que ele, afinal, não conseguisse atender ao compromisso. No que atendeu, em cima da hora, a repercussão escapou-lhe das mãos.

Parte de um balé encenado em 1928 na Ópera de Paris, Bolero serviu como trilha de uma coreografia extremamente erótica, um aspecto que enfureceu Ravel, que enxergava em sua obra a representação de uma ode à modernidade, de uma repetição sonora que evocaria o funcionamento das máquinas que começavam então a dominar o mundo. Ida, no entanto, preferiu o cenário de um bordel, habitado por ela e outras sensuais dançarinas e seus pares, obtendo um tremendo sucesso.

O filme salienta a solidão amorosa de Ravel, que frequentava bordéis onde tocava piano com as moças que mal tocava, e tinha uma grande paixão irresolvida por Misia (Doria Tiller), irmã de seu grande amigo Cipa (Vincent Perez), que se casara sucessivamente com outros homens.

Misia e Ravel revelam-se como duas almas próximas, habitantes de um afeto que não consegue transbordar para o sexo, especialmente por causa da contenção de Ravel. Ela permanece, porém, uma figura constante em sua vida, assim como a professora Marguerite (Emmanuelle Devos), uma de suas protetoras, assim como sua mãe e, após sua morte, a empregada (Sophie Guillemin). 

A intensa fama do Bolero e sua sobrevivência tão larga, repercutindo até quase 100 anos depois, parece inclusive desmentir a avaliação pessimista de seu compositor sobre sua suposta trivialidade. Sua repetição hipnótica, num crescendo que termina numa explosão, mostrou-se imortal. 

O desafio para o filme é penetrar nessa esfera tão pessoal e misteriosa que é a criação artística - o que até certo ponto consegue, graças à interpretação dedicada de seu protagonista. Por outro lado, todo esse processo é muito maior do que o filme consegue apreender, ou mesmo sugerir. Suas intenções, portanto, ficam apenas parcialmente realizadas.

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