Dirigido pela cineasta brasileira Márcia Faria, A Procura de Martina realiza uma bem-vinda intersecção das histórias argentina e brasileira. Contando com uma protagonista do quilate da atriz Mercedes Morán, o filme embarca numa viagem instável, num enredo que parte das memórias da guerra suja da ditadura argentina.
Martina (Mercedes Morán) é uma das Avós da Praça de Maio, e que busca, há décadas, notícias da filha e do neto desaparecidos no turbilhão da ditadura argentina. Essa mulher que dedicou tanto de sua vida à preservação dessa memória está, no entanto, sofrendo dos primeiros sinais de Alzheimer, obrigando-a a carregar sempre consigo uma caderneta de anotações, além de espalhar papeizinhos por toda a sua casa, para ajudá-la a lembrar de compromissos e tarefas cotidianas.
Escudada no apoio de amigas como Norma (Adriana Aizemberg), a presença cômica do filme, e Rosa (Cristina Banegas), Martina consegue levar a vida adiante. Até o dia em que recebe a informação de que seu neto perdido, Ignacio, pode estar no Brasil, vivendo sob o nome de Ricardo Cruz.
Se a primeira metade do filme é toda intimista, mergulhada no cotidiano solitário de Martina, tudo se desequilibra com sua intempestiva decisão de viajar ao Brasil para confirmar a identidade do neto - um procedimento que a prudência e as amigas desaconselham, mas a urgência da própria idade e do desaparecimento gradual da memória instigam.
No Rio de Janeiro, sem conhecer a cidade nem a língua, Martina se lança a essa busca que justificou sua vida até aqui, mergulhando em incidentes e impasses aflitivos para o espectador, que já se apegou irresistivelmente a essa mulher e à sua luta. No meio de muitos desenganos, ela encontra uma aliada inesperada em Jéssica (Luciana Paes), uma descolada recepcionista de hotel.
É por meio de Jéssica que Martina encontra uma ponta do fio da meada que pode ou não levá-la ao encontro do neto, no caso, Hilda (Carla Ribas), a possível mãe adotiva dele. É nesse segmento que o filme se torna mais tenso e intrincado, porque há uma possibilidade de que este homem procurado esteja também desaparecido, ameaçado por um dos muitos braços do crime organizado.
A identificação segura deste homem ausente fica, então, num segundo plano, já que o roteiro, assinado pela diretora e pela talentosa Gabriela Amaral Almeida (diretora dos suspenses O Animal Cordial e A Sombra do Pai), tem a ambição de abrir mais uma porta, discutindo também a violência urbana. Um pequeno reparo: talvez seja muita coisa para um filme mais empenhado nos dilemas intimistas de uma mulher e com pouco tempo e disposição para explorar os contextos político-sociais que provocam os grandes dramas da vida dela e de tantas outras mulheres. Por isso, há soluções para determinadas situações que não resultam satisfatórias neste roteiro.
