É difícil pensar num cineasta mais adequado do que o francês Quentin Dupieux para fazer um filme sobre Salvador Dalí e seu universo. Em Daaaaaalí! (imagine esse título como um grito embriagado), ele mergulha no surrealismo, criando uma obra em que forma e conteúdo se confundem como sonho e realidade. É anárquico e lúdico, ao mesmo tempo, ingênuo e sofisticado, em iguais medidas.
Uma gama de atores franceses dão corpo, voz e alma ao artista espanhol, sempre com o bigode marcante e trejeitos inesquecíveis. Eles são objeto de um documentário capitaneado Judith (Anaïs Demoustier), uma farmacêutica que agora trabalha como jornalista e tem a oportunidade de entrevistar o artista (nesse momento, interpretado por Édouard Baer).
Obviamente, ele não é uma figura fácil, mas é sempre divertido em seu ego e cinismo gigantescos. Ao longo do filme, Gilles Lellouche, Jonathan Cohen, Pio Marmaï e Didier Flamand o encarnarão em momentos distintos, e, nem sempre, é detectável quem está em cena – e isso pouco importa, pois só acrescenta mais surrealismo à aura de estranhamento do filme.
Logo a entrevista se torna um documentário, quando um produtor, Jerôme (Romain Duris), se empolga com o material e pede a Judith para transformar aquilo num filme. A Dalí, ele promete, entre outras coisas, “a maior câmera do mundo”, algo que fala direto ao ego do pintor. Tudo é muito surreal dentro do filme a ponto de não sabermos o que é apenas um delírio ou, supostamente, de verdade.
É nesse jogo que Dupieux, um cineasta cuja obra é marcada pelo surreal e absurdo, encontra a maneira mais certeira de elaborar sobre Dalí e sua obra – uma delas, inclusive, pintada em cena, por assim dizer, pois é difícil definir mesmo o que está acontecendo.
Em meio a tanta loucura, talvez Dalí seja o único personagem com sanidade mental em meio a tanta gente com interesses possivelmente dúbios em relação a ele. Será que Judith é uma jornalista brilhante ou uma fraude? O produtor Jerôme, sempre muito empolgado a colocar dinheiro no projeto, não se importa os pedidos bem surreais de Dalí - é um megalômano ou um intrépido capitalista que vê a possibilidade de lucros exorbitantes nesse projeto?
Dalí é capaz de ver um Dalí idoso, numa cadeira de rodas, seu possível futuro. Assustado de início, mas mais tarde, ainda mesmo na forma caótica do filme, o personagem percebe a oportunidade uma meditação sobre a passagem do tempo, de como a arte é perene diante da fragilidade da vida.
