Vencedor do prêmio de melhor ator para o cubano Reynier Morales na mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2024, O Deserto de Akin radiografa um período crítico da história recente do País, o ano de 2018.
Integrante do programa Mais Médicos, o cubano Akin (Reynier Morales) vive um impasse. Depois de anos morando no Brasil, plenamente integrado, ele agora vive a ameaça de ter que voltar para seu país, depois do fim abrupto do programa. A vitória de Jair Bolsonaro está no horizonte. Todos os sinais do autoritarismo que se anuncia são simbolizados na visão de uma cobra no mato, metáfora para um ambiente que se envenena lentamente.
O segundo longa do diretor capixaba é particularmente eficiente em mostrar este médico cubano enraizado numa pequena comunidade litorânea, em que convive com habitantes indígenas, proporcionando um atendimento extremamente caloroso e individualizado - como no caso de uma menina indígena que necessita de um transplante de córnea para recobrar a visão.
As ligações de Akin são também amorosas. Ele está envolvido com a professora Erica (Ana Flávia Cavalcanti) e logo o duo se transforma em trio, integrando o cozinheiro pernambucano Sérgio (Guga Patriota).
Estes relacionamentos pessoais e profissionais acentuam o dilema de Akin, que não deseja partir mas é pressionado a isso - o governo cubano inclusive já mandou sua passagem de volta. Permanecer significa ficar sem emprego e sem a proteção do programa, numa incerteza ainda mais sombria pelo novo governo que se aproxima - cujos sinais de intolerância já se manifestam em pessoas como um homem que joga seu carro contra o trio, numa noite em que voltavam juntos pela rua.
O filme aposta na sutileza dos dramas íntimos do protagonista, criando metáforas também com a invasão das casas pela areia - um fenômeno aparentemente misterioso e incontrolável.
A porção de realidade entra mais fundo pelo final do filme, quando são mostradas fotos de Araquém Alcântara dos médicos do programa Mais Médicos, lançado em 2013 pela presidenta Dilma Rousseff, sendo que 60% de seus profissionais vieram de Cuba. Sem dúvida, um marco no atendimento a populações de locais distantes, algumas nunca antes tendo tido acesso à medicina.
