03/07/2026
Drama

Filhos

Eva é uma experiente agente penitenciária na ala de prisioneiros de baixa periculosidade de uma grande prisão. Um dia, ela vê chegar à instituição um novo preso, Mikkel, que teve um papel decisivo no episódio mais traumático na vida de Eva. Ela pede transferência para a ala onde ele está e dá início a um meticuloso e arriscado plano de vingança.

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Concorrente na competição principal em Berlim 2024, Filhos, do cineasta dinamarquês Gustav Möller, brilha pela eficiência dramática de um relato ambientado numa prisão.

Eva Hansen (a ótima Sidse Babett Knudsen, de Depois do Casamento), é uma agente penitenciária muito profissional, atuante numa ala de prisioneiros de baixa periculosidade. Experiente, sóbria e discreta, ela é atenta a cada detalhe daqueles sob seus cuidados e não só de uma forma autoritária. Ela os ajuda na alfabetização e até conduz sessões de relaxamento com eles. Seu comportamento traduz uma espécie de cuidado maternal de algum modo desviado para esse trabalho.

Até aí, nada se sabe sobre Eva, que nunca é vista fora da prisão. Nada conhecemos de sua vida pessoal e nunca a vemos em sua casa, o que é uma forma sutil de expor o quanto essa mulher madura e solitária não tem outra existência fora do trabalho. 

Essa profissional tão eficiente, no entanto, começa a perder o controle quando vê chegar à instituição um novo preso, Mikkel Iversen (Sebastian Bull) - elemento-chave no episódio mais dramático da vida de Eva, que só aos poucos o filme revelará.

É evidente que o novo prisioneiro desperta em Eva um ódio incontrolável, que se traduz numa vigilância constante de seus passos. Logo ela pedirá transferência para o bloco onde ele se encontra, de segurança máxima, reservado aos presos de maior periculosidade. 

Desdobra-se aos poucos uma trama de vingança, conduzida com mão segura e um clima envolvente, em que se desenvolve um jogo de poder. Na primeira parte, favorecendo Eva, na segunda, entregando alguns trunfos a Mikkel, depois de um episódio de violência em que a agente foi comprometida.

Neste duelo tenso entre os dois personagens, o filme instala uma discussão ética extremamente relevante - afinal, até onde é lícito ir numa vingança? O modo como o diretor vai desdobrando as camadas desse conflito e revelando os detalhes da situação que levou a tudo isso - envolvendo um filho de Eva - é altamente controlado e eficaz, crescendo em intensidade e mergulhando o espectador numa expectativa crescente. O duelo se dá na camada que resta de humanidade aos dois, sendo Mikkel uma personalidade agressiva e violenta com a qual é muito difícil empatizar. Mas até esse detalhe coloca o espectador no lugar de Eva - por ser ele quem é, ela tem direito a fazer justiça com as próprias mãos? 

Com uma câmera muito fechada nesses ambientes estreitos da prisão e takes enxutos e precisos, na fotografia sombria e claustrofóbica de Jasper Spanning, o filme apóia uma economia dramática cortante, que termina sendo seu grande trunfo para provocar emoções nada simples e afastar-se de qualquer pieguice - e por isso mesmo, é profundamente humano e não maniqueísta.

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