Apesar do título brasileiro O Último Moicano, o longa corso não é uma adaptação do livro de James Fenimore Cooper, cuja versão mais famosa é assinada por Michael Mann. O longa escrito e dirigido por Frédéric Farrucci, no entanto, realmente fala de uma espécie de “último exemplar”. Trata-se do pastor de cabras Joseph Cardelli, interpretado com brio e sagacidade por Alexis Manenti, mais conhecido por seu trabalho como o policial violento de Os Miseráveis, de Ladj Ly.
Joseph é um homem pacato, cuidadoso com seu rebanho e orgulhoso de seu trabalho, que acaba se tornando uma espécie de herói ao bater de frente com a máfia local ao se recusar a vender sua propriedade para especuladores. Farrucci, em seu segundo longa, toma emprestado elementos do faroeste, situando-os na ilha francesa.
Manenti apresenta uma interpretação calibrada de energia e silêncios de um personagem taciturno que quer apenas fazer seu trabalho em paz, e manter a tradição local. Mais à vontade com suas cabras do que com seres humanos, Joseph é o único pastor numa região que foi tomada pelo turismo e empreendimentos imobiliários, que pretendem transformar a região ao redor de sua fazenda num condomínio de luxo. Essa resistência é que coloca sua vida em risco.
O filme lida com duas vertentes: a primeira do próprio Joseph e as tradições da comunidade, e a outra, de sua sobrinha, Vannina (Mara Taquin), que volta de Paris para passar as férias na região onde nasceu e cresceu. É ela quem dá o apelido de Moicano ao tio.
Fincando os dois pés no realismo, sem qualquer traço de estilização pós-moderna (como faria um Tarantino), Farrucci observa como as regras de violência do faroeste se reproduzem no presente, gerando mais violência até se tornar algo impossível de lidar, e encontra em Manenti o ator perfeito para esse personagem complexo.
