03/07/2026
Drama

Suçuarana

Dora é uma mulher solitária numa jornada de busca de suas raízes. Trabalhadora itinerante, ela vaga pelas estradas, endurecida, resistente a laços afetivos - inclusive a um cão que resolve segui-la e se torna um símbolo de toda essa afetividade que lhe faltou e que agora ela não sabe como lidar. Nos cinemas.

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Clarissa Campolina e Sérgio Borges são dois nomes incontornáveis do cinema mineiro. Ela, conhecida como montadora e por filmes como Girimunho e Trecho (codirigidos com Helvécio Martins), Ainda Estamos Aqui (codireção com Luiz Pretti) e Canção ao Longe. Ele, especialmente por O Céu sobre os Ombros, grande vencedor do 43º Festival de Brasília. Ambos cineastas versados num cinema da sensibilidade, atento aos detalhes e humanista sem perder de vista o quanto as minúcias do cotidiano expressam o todo da sociedade e da política. 

Os dois se uniram para dirigir Suçuarana, em que a protagonista é Dora (Sinara Teles), uma mulher solitária numa jornada de busca de suas raízes. Ela é o tipo da heroína que o cinema colocou como um personagem masculino, uma andarilha que vaga pelas estradas, solitária, endurecida, resistente a laços afetivos - inclusive a um cão que resolve segui-la e se torna um símbolo de toda essa afetividade que lhe faltou e que agora ela não sabe como lidar. O cão, que acaba recebendo o nome de Encrenca, aliás, é um dos trunfos do filme, carregando consigo camadas de humor e afeto que quebram a dureza das condições de vida de Dora.

Ela é, aliás, um símbolo das condições precárias de vida dos trabalhadores no Brasil, oscilando entre empregos instáveis e sacrificados, e que acaba caindo na estrada em busca de um certo vale mítico, onde sua mãe teria lhe prometido que morariam um dia, num pedaço de terra finalmente seu. Da mãe, uma trabalhadora itinerante numa antiga região mineradora, não se sabe o destino. Dora foi criada pela avó, crescendo embebida nessa esperança, nessa utopia de um lugar que ela nem mesmo sabe se existe.

Nas estradas, tudo o que acha são paisagens devastadas de montanhas destruídas pela mineração predatória ao longo de décadas, deixando atrás de si fábricas hoje fechadas, abandonadas. No que restou de uma delas, Dora encontra uma comunidade de ex-operários, que se apropriam do maquinário abandonado pelos proprietários, e que agora eles desmontam para vender como ferro-velho. Pessoas vivendo de sobras, mas que formam uma comunidade onde finalmente Dora desfruta de alguma solidariedade, ainda que não a quietude de seu espírito.

Nessa comunidade, ela conhece, por exemplo, Ernesto (Carlos Francisco, de Marte Um), uma espécie de líder, figura paternal, dentro de um grupo em que há muitas mulheres, dividindo esse trabalho duro e também dando escuta e acolhimento. Desses encontros, como com uma cantora de estrada e sua filha, o filme constrói uma atmosfera que une o particular e o social, apontando o quanto são precárias ainda as condições de vida dos trabalhadores do País, até como resultado de tantas reformas e mudanças políticas impositivas. Tudo isso num tom sutil, amarrado nesse roteiro denso e complexo, assinado por Clarissa e Rodrigo Oliveira, num filme que ressoa tão profundamente em tantas camadas que é capaz de somar - inclusive incorporando a força de resistência traduzida nas expressões culturais de origem africana, retratadas num belo momento de dança de máscaras que remete à participação da Guarda de Moçambique de Ouro Preto, grupo de manifestação afro-religiosa do qual veio também um dos atores do elenco, Kedson Guimarães. 

Um trunfo inegável está nessa protagonista, Sinara Teles, uma experiente atriz de teatro, vista em filmes como No Coração do Mundo, Temporada e Canção ao Longe, que faz aqui sua primeira protagonista, merecidamente vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília 2024. Este um dos cinco troféus obtidos ali pelo filme, e que incluem também melhor ator coadjuvante para Carlos Francisco e os prêmios técnicos de Fotografia, Edição de Som e Montagem.

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