02/07/2026
Drama

De Nápoles a Nova York

1949. Numa Nápoles destruída pela II Guerra, duas crianças, Celestina e Carmine, tentam sobreviver a condições muito duras. Celestina sonha em partir para os EUA, para onde sua irmã, Agnese, partiu há anos, mas não mandou mais notícias. Um dia, os dois, por acaso, acabam partindo num navio para Nova York. Como são clandestinos, devem esconder-se do rigoroso comissário de bordo, Domenico Garofalo. No Festival do Cinema Italiano.

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Filme de abertura do Festival de Cinema Italiano, e integrante de sua programação em salas e online, o melodrama De Nápoles a Nova York, de Gabriele Salvatores, formula uma série de resgates. Trata-se de uma história desenvolvida a partir de um argumento inédito da dupla Federico Fellini e Tullio Pinelli (o roteirista de A Estrada da Vida, Noites de Cabíria e A Doce Vida) que reencontra o tema da imigração e do preconceito contra os imigrantes, que na atualidade persiste com os sinais trocados. Se no tempo da história (1949), eram os italianos pobres o objeto de discriminação, agora são os refugiados africanos que encontram todo tipo de obstáculo ao aportarem na Europa. Uma prova de que o tema não se esgota num único tempo e lugar.

Os protagonistas são duas crianças, Celestina (Dea Lanzaro) e Carmine (Antonio Guerra), órfãos que sobrevivem com extrema dificuldade numa Nápoles empobrecida e destruída, quatro anos após o fim da II Guerra Mundial. Nesta Itália derrotada e precária que tantas vezes o neorrealismo retratou, as duas crianças acalentam o sonho de partir para a América, onde já se encontra a irmã mais velha de Celestina, Agnese (Anna Lucia Pierro) - que há muito não dá notícias. 

Um incidente envolvendo o cozinheiro de um navio que parte para os EUA, George (Omar Benson Miller), acaba colocando Carmine e Celestina a bordo, como clandestinos. Uma situação que põe à prova os muitos talentos do descolado Carmine para conseguir mantê-los escondidos e a salvo da vigilância do comissário Domenico Garofalo (Pierfrancesco Favino).

A primeira parte, em Nápoles, e as sequências ambientadas no navio colocam em foco esse mundo dividido drasticamente em classes sociais muito diferentes, em que os imigrantes italianos, tal como escravos em navios negreiros, viajavam numa segunda classe atulhada e insalubre, enquanto os passageiros norte-americanos e europeus desfrutavam de todo o conforto no andar de cima. 

Uma esperteza do roteiro está em encontrar semelhanças entre a situação dos negros norte-americanos, começando pelo cozinheiro George, e os imigrantes italianos, o que se acentuará quando, a duras penas, estes desembarcarem na Ellis Island, em Nova York. Perdidos numa cidade desconhecida, Carmine e Celestina não têm outra referência para encontrar Agnese do que uma velha fotografia e um endereço rabiscado atrás. O que se prova pouco demais para a aventura que os dois irão ter, em que não faltam episódios dramáticos, inclusive envolvendo o destino de Agnese - o que desencadeia um segmento em que a mobilização popular e feminista e a ação da imprensa se manifestam de maneira esperta.

Diretor de Mediterrâneo, Oscar de melhor filme estrangeiro em 1992, Salvatores é herdeiro da vigorosa tradição cinematográfica italiana, capaz de conectar esta variedade de temas sob uma luz emotiva, em busca de comunicar-se com um grande público - mas que nem por isso deixa de oferecer um final aberto, o que um filme de Hollywood dificilmente faria. 

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