Vencedor de quatro prêmios no Festival de Cannes e indicado a quatro Oscar, O Agente Secreto é um filme que desafia classificação, reunindo detalhes reveladores da sólida estruturação de uma obra que articula vários gêneros e tons, criando uma multiplicidade que aspira a sintonizar a própria complexidade do Brasil.
Com enredo ambientado em 1977, o filme não é sobre o passado, mas sobre o presente. Porque a saga do protagonista, o professor universitário Marcelo (Wagner Moura), um homem que foge a uma perseguição política obscura, comunica-se com a ideia de um país que ainda não fez as pazes com todas as memórias desse passado, dessa ditadura que matou, torturou e exilou e que foi encerrada mediante uma anistia que deu a falsa impressão de uma pacificação que nunca houve - porque os criminosos do regime não foram punidos.
Não é que a história do filme proponha nenhuma revanche. A narrativa apenas resgata relatos de um tempo não tão distante em que os poderosos mantinham uma aliança nem tão disfarçada com matadores e policiais sem escrúpulos e as pessoas que incomodavam os círculos do poder tinham que recorrer a uma rede clandestina de apoio, desmontando toda possibilidade de manterem uma vida normal.
E se o humor também comparece é pela via do macabro, com o surgimento de uma perna humana na boca de um tubarão e dos relatos da imprensa popularesca sobre os ataques dessa perna em locais como parques públicos - e que era uma espécie de metáfora para descrever os excessos policiais que nenhuma imprensa podia denunciar explicitamente, mas boa parte do público decifrava o código.
E, se não propõe revanche, O Agente Secreto repropõe o resgate da memória - que é um tema constante no Brasil, mas aqui encontra uma substância diferente. O filme é sobre tudo isso e muito mais.
Na coletiva concedida em sua première mundial, em Cannes, Mendonça Filho comentou sobre as semelhanças temáticas apontadas entre seu filme e o premiado Ainda Estou Aqui, de Walter Salles: “São dois irmãos que não sabiam que existiam. Bem diferentes, mas com uma frequência interior em comum, em tema e sentimento”. O diretor reiterou que os dois filmes foram feitos num mesmo ano “sem combinação, nem planejamento, falando de uma memória histórica com efeitos sobre o tempo presente”.
Para Mendonça Filho, “o Brasil tem um grande problema de amnésia autoaplicada”, decorrente da anistia de 1979, “propiciada pelo próprio governo militar, que praticou inúmeros atos de violência”. Isto, para ele, “causou um trauma, porque foi normalizado cometer todo tipo de violência e depois passar um pano. Esse foi um elemento muito forte para eu querer fazer esse filme, essa ideia de memória”.
Num elenco que registra a presença de inúmeros atores consagrados em pequenos papéis - caso de Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Hermila Guedes, Isabel Zuaá e incrível Tânia Maria -, o filme se aproveita das participações de cada um para dar um sólido contexto da época. Que o Brasil saiba recebê-lo de coração e mente abertos.
