Há um momento bastante bonito no documentário Apolo, quando a criança que dá título ao filme ainda está no ventre de seu pai, um homem transexual, conversa com a mãe do futuro bebê, ela, por sua vez, uma mulher trans, que confessa sonhar poder sentir a criança dentro de si. A conversa sincera e emocionante encapsula tudo o que esse premiado filme traz em sua essência: a construção de afetos e novas dinâmicas familiares num mundo marcado, ainda, pelo preconceito e a incompreensão.
Dirigido pela atriz Tainá Müller e a atriz e cantora Isis Broken, mãe de Apolo, o filme foi premiado no Festival do Rio como Melhor Documentário e Melhor Trilha Sonora, assinada por Plínio Profeta. Isis e Lourenzo Gabriel moram no Sergipe, quando ele engravida, e, apesar do apoio dos familiares e amigos, o casal ainda enfrenta dificuldades com burocracias e preconceitos, mesmo no serviço médico. Por isso, acabam se mudando para São Paulo, onde esperam maior acolhimento por parte de médicos e afins.
E, no caminho do casal, está o Dr Emmanuel Nasser, médico ginecologista e obstetra que os recebe com carinho e compreensão num Centro de Referência para Pessoas Trans, orientando-os sobre os desafios e dilemas de uma gravidez de uma pessoa transexual. E, assim, de forma muito honesta, o longa acompanha a gestação de Lourenzo Gabriel.
Para além de tocar em assuntos importantes e urgentes, Apolo ganha muito com o carisma de Isis e Lourenzo, e sua força e resiliência. Isis, ela própria uma artista, tem domínio na frente da câmera com sua beleza e bom humor, que domina o filme. O que não quer dizer que tudo sejam flores entre o casal. Há momentos de discussões sérias sobre questões inerentes a toda situação, sendo a mais marcante quando se discute sobre amamentar ou não o bebê quando nascer. Num momento histórico que se diz tanto “meu corpo, minhas regras”, o filme observa exatamente como esse discurso funciona na prática com seus ganhos e debates.
Construído como uma carta ao menino que nascerá, o documentário encontra um tom muito acertado na montagem de Tatiana Lohmann, que começa apresentando as duas figuras centrais, introduzindo, posteriormente, seus enfrentamentos e vitórias. Assim, o documentário investiga o termo “família” como uma construção histórico-social respondendo às necessidades e pressões de um momento histórico e transformando-se em novos modelos familiares.
