Se Glória Pires ainda não é uma unanimidade nacional, deveria ser. Inteligente, excelente, atriz, simpática e bonita – tem todas as qualidades para ser admirada, como já é. Com quase 60 anos de carreira entre cinema e televisão, ela fez personagens incônscios, como, Maria de Fátima (na novela Vale Tudo), Ana Terra (na série dos anos de 1980 O Tempo e o Vento), Nice (no remake de Anjo Mau), e Dona Lola (na versão de 2019, de Éramos Seis). No cinema, esteve em Memórias do Cárcere, O Quatrilho, Se Eu Fosse Você, É Proibido Fumar, Lula, o Filho de Brasil, e A Suspeita, que lhe rendeu prêmio de atriz em Gramado de 2021.
Dirigir um longa talvez fosse um sonho antigo, que ela realiza agora com Sexa, do qual também assina o roteiro. Diretora de primeira viagem, Glória não ousa, fala de um assunto próximo a si: a chegada dos 60 anos – daí o título Sexa, uma forma carinhosa de se referir às sexagenárias. Pode ser também, mais sutilmente, um trocadilho com a palavra “sexo”, tomado pelo ponto de vista feminino.
Além de roteirizar e dirigir, ela também protagoniza o longa, no papel de Bárbara, uma tradutora que acaba de completar 60 anos e precisa reencontrar a alegria de viver, fora o trabalho e cuidar da família do filho adulto, Rodrigo (Danilo Mesquita), casado e pai de família, aspirante a músico mas esperando chegar uma oportunidade – enquanto isso, se encosta na mãe.
Sexa realmente aborda questões pertinentes à mulheres da faixa etária da personagem – mas, que fique claro, do mesmo estrato social de classe média bem de vida e sem grandes problemas. Nesse sentido, o filme deve dialogar bem com seu público-alvo, que pode se identificar com os problemas e provações da personagem.
Nessa nova fase, Bárbara se envolve com um homem mais novo, Davi (Thiago Martins), viúvo e pai solo. Ele mora com seu pai (Eri Johnson), que cuida da neta, enquanto o filho trabalha. É claro que o casal vai enfrentar primeiro as inseguranças da protagonista, depois, os preconceitos de um relacionamento entre duas pessoas de idades diferentes.
Sexa trilha caminhos óbvios, e, muitas vezes, segue na pegada de uma trama secundária de novela das oito. Não chega a ter um texto afiado e personagens bem delineados como um, digamos, Gilberto Braga – com quem Glória trabalhou tantas vezes – mas tem um carinho enorme por sua personagem e pela coragem dela abraçar ser sexa sem medo.
