18/07/2026
Comédia Suspense

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Ex-boxeador, o padre Jud Duplenticy dá um soco em um diácono e acaba transferido para uma pequena paróquia com devotos muito peculiares. Quando o problemático Monsignor da igreja aparece morto, todos se tornam suspeitos. Na Netflix.

post-ex_7

Não há dúvida de que este foi o ano de Josh O’Connor. Um ano que começou a ser construído em 2023 com La Chimera, passando em 2024 por Rivais, e chegou a 2025 com o western Rebuilding, História do Som e sobe ao topo com Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, terceiro filme da franquia.

Daniel Craig pode ainda interpretar o protagonista do filme, como o detetive Benoit Blanc, mas não há dúvidas de que o filme é de O’Connor como Jud Duplenticy, um ex-boxeador que se tornou padre e é transferido a uma pequena paróquia depois de dar um soco num diácono. 

Esse é o ponto de partida do longa escrito e dirigido por Rian Johnson, que faz justiça ao original, Entre Facas e Segredos (2019), e é muito superior ao segundo longa, Glass Onion: Um Mistério Knives Out (2022). Em 2017, com a nova versão de Assassinato no Expresso do Oriente, Kenneth Branagh, dirigindo e protagonizando, fez um aquecimento para um revival de Agatha Christie no cinema (que rendeu outros dois longas), mas foi Johnson com o primeiro Entre Facas e Segredos que realmente encontrou o filão que, mesmo não sendo adaptação de nenhum livro da Rainha do Crime, mantém-se fiel ao espírito das histórias dela, com o diferencial de ser totalmente original – ou seja, ninguém sabia quem era o assassino, ao contrário das adaptações. 

A história é, como se deve, simples, mas contada de forma rocambolesca a fim de parecer mais complexa e indecifrável do que é. Essa, é claro, é a graça do longa. Na pequena comunidade, Duplencity está sob o comando do Monsignor Jefferson Wicks (Josh Brolin), que logo é assassinado em pleno serviço no altar, numa Sexta-Feira Santa. Isso não é nenhum spoiler; é, basicamente, o começo do mistério do filme. 

Boa parte do enredo serve como uma apresentação dessas pessoas estranhas e profundamente religiosas, mas não de uma maneira muito sincera. A religião é uma espécie de verniz cobrindo a hipocrisia das personagens e o disfarce para seus atos escusos. Com a morte do Monsignor, os poucos devotos que frequentam a igreja se tornam todos suspeitos – incluindo Duplencity. 

As revelações do roteiro e os perfis dos personagens tornam-se alegorias dos EUA contemporâneo, sendo o Monsignor uma figura que lembra uma espécie de líder de culto à la Trump, com seus seguidores fervorosos e cegos, como é o caso de Martha Delacroix, interpretada com assustador vigor por Glenn Close; ou um escritor de ficção científica (Andrew Scott); um médico (Jeremy Renner) abandonado pela mulher e filhos; uma ex-violoncelista (Cailee Spaeny) numa cadeira de rodas; e um político conservador (Daryl McCormack), que virou youtuber. São tantas personagens e tão repletas de camadas que mal se lembra da existência do detetive Benoit Blanc, até que o crime acontece e ele ajuda a policial local (Mila Kunis). 

Pecado e culpa são temas caros ao filme, que também lida com questões como falsidade e avareza. É um olhar bastante incisivo que o longa joga sobre o mundo atual nessa comédia gótica de mistério, e o resultado é mais relevante do que pode parecer. O’Connor brilha em cada cena, e o filme é dele, sem dúvida. Mais um passo de um ator que em 2026 estará nas telas, novamente, como protagonista do novo longa de Steven Spielberg. 

post