23/07/2026
Drama Filme de época

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

No século XVI, em Stratford-on-Avon, apaixonam-se os jovens Agnes e William Shakespeare, duas almas independentes e rebeldes. Pressionado pelo pai a tornar-se luveiro, como ele, para sustentar sua família, ele não pára de sonhar em seguir uma carreira como dramaturgo e escritor. Uma tragédia familiar influenciará uma de suas obras mais famosas: "Hamlet". No Prime Video (a partir de 24/7).

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Da fonte inesgotável que é William Shakespeare, saiu mais uma pérola. Em 2020, a autora irlandesa Maggie O’Farrell lançou o livro Hamnet: A Novel of the Plague que, por uma coincidência absurda, saiu em plena pandemia da covid-19. No livro, ela romanceia alguns detalhes pouco conhecidos da biografia do celebrado dramaturgo inglês, envolvendo a morte precoce de um de seus filhos, Hamnet, durante a epidemia da peste bubônica, em 1596. Estaria aí a raiz de uma das mais famosas peças do bardo, Hamlet, que é uma das formas alternativas de escrever o nome “Hamnet”. 

Cinco anos depois, a escritora associou-se à cineasta sino-americana Chloé Zhao para escrever o roteiro do filme que Zhao dirigiu e que venceu dois Globos de Ouro (melhor filme de drama e melhor atriz para Jessie Buckley), derrotando candidatos fortíssimos como Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, e Pecadores, de Ryan Coogler e tornando-se, ao lado deles, um dos mais fortes concorrentes no próximo Oscar. 

Drama de época, Hamnet - A Vida Antes de Hamlet respira uma energia incrível. É um filme altamente sensorial, a partir da fotografia do polonês Lukasz Zal - responsável pelas imagens de Ida, Guerra Fria e Zona de Interesse. A partir das escolhas de sua paleta de cores, tornam-se muito vívidas a ambientação e também as mudanças nos climas e tons dos sentimentos, tão à flor da pele, dos personagens. Vibra uma intensa corporalidade nas sequências iniciais, que apresentam a protagonista, Agnes (Jessie Buckley), uma jovem livre, que não se adapta às convenções de sua época, passando seus dias nos bosques, onde exercita seus conhecimentos sobre ervas e plantas, transmitidos pela falecida mãe, acompanhada por seu falcão amestrado.

Uma jovem tão anticonvencional, ainda mais em pleno século XVI, não passa despercebida. Nem aos moradores da pequena Stratford-on-Avon, que a consideram bruxa, como sua falecida mãe, nem ao jovem Will Shakespeare (Paul Mescal). Ele mesmo às voltas com a própria rebeldia contra o pai, um luveiro embrutecido,que quer por força que o filho siga sua profissão e se conforme à pobreza e mediocridade. Will certamente tem outros planos. Apaixonado por livros e literatura, sonha tornar-se escritor e dramaturgo. 

A união desses dois corpos e duas almas parece, portanto, escrita nas estrelas. A paixão avassaladora entre Agnes e Will leva a uma gravidez, logo mais a um casamento que não é bem-visto com bons olhos pelas famílias. Mas a união acaba se impondo com a força de um imenso afeto que o nascimento dos filhos só vem aumentar. 

O dilema básico de Will, no entanto, continua. Agora pai de três crianças, é mais do que nunca pressionado pelo pai e a própria responsabilidade para transformar-se num simples luveiro, sepultando sua paixão pelas letras. Mas, como sabemos, ele está destinado a muito mais.

Apoiado por Agnes, apesar de todo sacrifício que isso impõe, ele decide tentar sua sorte em Londres, onde fica o circuito de teatros que pode dar-lhe sua grande chance. Aí começa o período em que a família será mais posta à prova. Afinal, fora a luta pela sobrevivência material, chegam também os tempos da peste bubônica.

A esta altura, evidentemente, sabemos muito sobre as obras de Shakespeare mas muito menos sobre ele mesmo e seus métodos de criação. O filme, assim como o livro, parte dessas lacunas para apossar-se de um incidente na vida dele, a morte precoce de um de seus filhos, e que seria o germe de uma de suas peças mais famosas, Hamlet. O grande mérito do filme é também delinear como as tragédias da vida podem servir de matéria-prima para a arte, sendo tão esplendidamente transformadas pelo poder das palavras, que lhe garantem uma tão ampla sobrevida através dos séculos. Pode ter sido tudo verdade, ou não, mas é um excelente argumento também para uma outra história.

Em destaque em todo este excepcional elenco, também os jovens atores que interpretam os filhos do casal, como Bodhi Rae Breathnach, como Susanna, a filha mais velha, Olivia Lynes, como Judith, e especialmente Jacobi Jupe, como Hamnet - um dos mais adoráveis e impressionantes pequenos atores de que se terá notícia nestes tempos. 

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