Inicialmente, a atriz Carolina Dieckmmann foi cogitada para viver a alcoólatra Heleninha Roitman, no remake de Vale Tudo, no ano passado. Ela acabou ficando com outra personagem, mas, no longa (Des)Controle, ela ganha uma espécie de Heleninha Roitman para chamar de sua. No cinema, uma personagem um pouco menos trágica do que a da televisão, mas, ainda assim, enfrentando problemas parecidos.
Dieckmmann interpreta a escritora Kátia Klein, que enfrenta um crise criativa, e precisa entregar seu novo livro, mais um de uma série com o público-alvo de jovens adultas, em breve. Ela olha para a tela em branco do computador, e a tela em branco olha de volta para ela. Nada sai, até que, por que não?, uma dose de álcool para libertar a imaginação. E não é que funciona?
Isso, no entanto, traz de volta o fantasma do passado, do alcoolismo, que parecia domado. As doses aumentam, a bebida precisa ser algo mais potente, e Kátia vê sua vida aos poucos desmoronar, abalando o casamento e a relação com os dois filhos adolescentes. No filme, o marido é interpretado por Caco Ciocler, e os meninos por Stefano Agostini e Rafael Fuchs Müller.
Estar com o livro escrito, no entanto, não significa que a etapa foi cumprida. Há todo o trabalho de finalização e divulgação, cada vez mais comprometidos pela descida da personagem ao fundo do poço. Nem o apoio de sua melhor amiga e agente (Julia Rabelo) consegue resgatar Kátia de sua jornada autodestrutiva.
Dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, com roteiro assinado por Felipe Sholl, Svartman e Iafa Britz, (Des)Controle tenta navegar por diferentes tons narrativos. Começa quase cômico, mas interessado em mostrar as agruras de uma mulher contemporânea que precisa dar conta de si mesma, do marido, dos filhos, do trabalho, da casa, dos pais (Daniel Filho e Irene Ravache), e sucumbe (quem não sucumbiria?) a tanta pressão.
Essa comicidade agridoce estabelece uma relação com a personagem que não se sustenta quando a trama muda a chave para o trágico. A Kátia divertida, de maneira quase doentia, embriagada, dá espaço para a Kátia que se destrói a cada novo dia, perdendo todos ao seu redor, contando apenas com os pais.
Não deixa de ser um retrato com interesse e sinceras intenções, com atuação empenhada de Dieckmmann, mas as duas tonalidades que atravessam o filme não parecem conversar organicamente. Está estabelecida demais a comédia delicada quando o lado mais dramático precisa tomar conta da narrativa, aí não sabemos muito bem para onde o filme quer apontar. Não há dúvidas de que seu esforço é mostrar como o vício consome essa mulher (assim como o patriarcado como um todo, mas de outra maneira, claro), mas parece que nem sempre (Des)Controle encontra as ferramentas certas para transmitir seus intuitos.
