Consagrada como atriz, Kate Winslet agarrou a oportunidade de estrear na direção ao mesmo tempo que um de seus filhos, Joe Anders, se iniciou como roteirista. Nasceu assim Adeus, June, um drama sobre a despedida de uma família a uma matriarca, interpretada por Helen Mirren.
Não se trata de uma história incomum, nem singular, mas é precisamente por ser tão frequente na vida de todas as pessoas que este drama familiar poderá conectar-se aos seus espectadores, ainda mais contando com um elenco qualificado como este.
A própria Kate interpreta Julia, a segunda filha mais velha de June, a mais bem-sucedida economicamente e também com a maior tendência a controlar tudo. Por conta do agravamento da doença de June, que tem um câncer terminal, todos os seus filhos terminarão se juntando no hospital, um reencontro que reacende a fogueira de velhos rancores mas não deixa de ter seu humor.
A irmã mais velha, Helen (Toni Collette), que mora nos EUA, é a responsável por muitos desses momentos cômicos, com suas manias de professora de ioga e técnicas naturalistas. A outra irmã, Molly (Andrea Riseborough), compartilha muito desse rigor naturalista, chegando às raias da ortodoxia para impor limites à alimentação de seus filhos. Mas não é por isso que Molly mantém uma guerra permanente contra Julia, com quem deixou de falar há muito tempo. O irmão caçula, único homem, é Connor (Johnny Flynn), tímido e sensível, carregando o peso de cuidar do pai idoso, Bernie (Timothy Spall), que parece sempre um tanto fora da realidade à sua volta.
Toda essa história familiar é transferida para o hospital, onde June acaba preferindo ficar, tornando-se uma espécie de território neutro onde várias das questões do clã poderão expressar-se e, talvez, esclarecer-se. Tudo isso sob o olhar bondoso de um enfermeiro, que atende pelo conveniente nome de Angel (Fisayo Akinache).
Como é comum em filmes dirigidos por atores, as interpretações se afinam para compor um conjunto de sensibilidades em que todas as notas sejam tocadas, inclusive com a participação de algumas crianças, netos de June, que somam ternura ao quadro dramático.
Confinada à sua cama e perfeitamente lúcida sobre tudo o que lhe acontece, June é talvez a pessoa mais tranquila do grupo, despojando-se de toda ansiedade e aproveitando os momentos que lhe restam. Diante dela, desenrolam-se as esperadas disputas entre os filhos, sobre as quais ela resolve interferir, mas com toda a sobriedade de que Dame Mirren é capaz.
Evidentemente, não se pode dizer que Adeus, June fuja às fórmulas dos dramas familiares, especialmente quando desenvolvidos perto do Natal - um detalhe do enredo que o jovem roteirista acrescentou num tratamento posterior do roteiro e não constava da ideia original, que se inspira, aliás, no episódio real da morte de sua própria avó, mãe de Kate, quando ele tinha 13 anos (hoje tem 22). Mas é certo dizer também que este drama britânico apega-se mais à contenção do que ao derramamento melodramático, sem suprimir a carga emocional da história que está contando. Só por isso, merece um elogio.
