02/07/2026
Drama

Adeus, June

A matriarca da família Cheshire, June, está em suas últimas semanas de vida, sofrendo de um câncer. Enquanto ela passa seus dias no hospital, perto do Natal, seus filhos Julia, Helen, Molly e Connor se revezam e também acertam as diferenças de toda uma vida. Na Netflix.

post-ex_7

Consagrada como atriz, Kate Winslet agarrou a oportunidade de estrear na direção ao mesmo tempo que um de seus filhos, Joe Anders, se iniciou como roteirista. Nasceu assim Adeus, June, um drama sobre a despedida de uma família a uma matriarca, interpretada por Helen Mirren.

Não se trata de uma história incomum, nem singular, mas é precisamente por ser tão frequente na vida de todas as pessoas que este drama familiar poderá conectar-se aos seus espectadores, ainda mais contando com um elenco qualificado como este.

A própria Kate interpreta Julia, a segunda filha mais velha de June, a mais bem-sucedida economicamente e também com a maior tendência a controlar tudo. Por conta do agravamento da doença de June, que tem um câncer terminal, todos os seus filhos terminarão se juntando no hospital, um reencontro que reacende a fogueira de velhos rancores mas não deixa de ter seu humor.

A irmã mais velha, Helen (Toni Collette), que mora nos EUA, é a responsável por muitos desses momentos cômicos, com suas manias de professora de ioga e técnicas naturalistas. A outra irmã, Molly (Andrea Riseborough), compartilha muito desse rigor naturalista, chegando às raias da ortodoxia para impor limites à alimentação de seus filhos. Mas não é por isso que Molly mantém uma guerra permanente contra Julia, com quem deixou de falar há muito tempo. O irmão caçula, único homem, é Connor (Johnny Flynn), tímido e sensível, carregando o peso de cuidar do pai idoso, Bernie (Timothy Spall), que parece sempre um tanto fora da realidade à sua volta.

Toda essa história familiar é transferida para o hospital, onde June acaba preferindo ficar, tornando-se uma espécie de território neutro onde várias das questões do clã poderão expressar-se e, talvez, esclarecer-se. Tudo isso sob o olhar bondoso de um enfermeiro, que atende pelo conveniente nome de Angel (Fisayo Akinache). 

Como é comum em filmes dirigidos por atores, as interpretações se afinam para compor um conjunto de sensibilidades em que todas as notas sejam tocadas, inclusive com a participação de algumas crianças, netos de June, que somam ternura ao quadro dramático.

Confinada à sua cama e perfeitamente lúcida sobre tudo o que lhe acontece, June é talvez a pessoa mais tranquila do grupo, despojando-se de toda ansiedade e aproveitando os momentos que lhe restam. Diante dela, desenrolam-se as esperadas disputas entre os filhos, sobre as quais ela resolve interferir, mas com toda a sobriedade de que Dame Mirren é capaz. 

Evidentemente, não se pode dizer que Adeus, June fuja às fórmulas dos dramas familiares, especialmente quando desenvolvidos perto do Natal - um detalhe do enredo que o jovem roteirista acrescentou num tratamento posterior do roteiro e não constava da ideia original, que se inspira, aliás, no episódio real da morte de sua própria avó, mãe de Kate, quando ele tinha 13 anos (hoje tem 22). Mas é certo dizer também que este drama britânico apega-se mais à contenção do que ao derramamento melodramático, sem suprimir a carga emocional da história que está contando. Só por isso, merece um elogio.

post