A indicação de Kokuho – O Preço da Perfeição ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo é muito merecida. O filme japonês não apenas traz as belas maquiagens impressionantes do teatro kabuki, um elemento central no longa, mas também há o envelhecimento dos personagens, que é muito bem-feito. Fora isso, não seria um erro também indicar o longa na categoria de Melhor Desenho de Produção – especialmente, de novo, por conta das apresentações do kabuki. O longa foi o representante do Japão para a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar.
Essa tradição nipônica é o que comanda o longa dirigido por Sang-il Lee. O tema tem um apelo cultural tão grande dentro do Japão, que o filme se tornou a maior bilheteria de um live-action na história do país. É fácil compreender como se conecta com o público local, afinal, kabuki é um tipo de teatro reverenciado e amado lá.
Para o público não-japonês, o filme funciona até como uma forma de mostrar mais sobre esse tipo de teatro, e como ele é feito. Embora as três horas de duração sejam um pouco exageradas. Os melhores momentos acontecem quando os personagens estão no palco, com suas maquiagens e figurinos típicos. As demais cenas nem sempre funcionam bem, servindo mais para costurar as apresentações.
Kokuho significa Tesouro Nacional, um título outorgado pelo governo japonês aos grandes mestres de uma arte. E esse é o sonho de Kikuo (interpretado por Soya Kurokawa, na infância, e por Ryo Yoshizawa, quando adulto), que, aos 14 anos, em 1964, vê seu pai, um líder da yakuza, ser assassinado. O menino se muda para Osaka, onde estudará com o mestre Hanjiro (Ken Watanabe), considerado um dos maiores atores de kabuki da sua geração.
Ele se torna amigo do filho de seu professor, Shunsuke (Ryusei Yokohama). Daí surge um relacionamento de proximidade e rivalidade que durará por anos, conforme transcorrem cinco décadas na vida dos dois personagens. Kikuo é uma figura misteriosa, que parece ganhar vida apenas no palco, sendo que, fora dele, tem dificuldade de se relacionar com outras pessoas.
Shunsuke, por sua vez, tem a obrigação de seguir uma tradição familiar que não parece lhe despertar paixão. Kikuo, sim, é apaixonado pelo trabalho e quer se tornar o melhor, porém, lhe desagrada ver o amigo ter oportunidades por conta de seu status, mesmo desprezando a arte. O caminho do protagonista para tornar-se um kokuho é marcado pela solidão e obstinação, obrigando-o a abrir mão de prazeres mundanos e até mesmo de pequenas alegrias para conquistar seu objetivo.
Os atores Yoshizawa e Yokohama passaram um ano treinando a arte do kabuki para poder fazer o filme, e o empenho transparece na tela. As cenas são marcantes em sua beleza plástica, e também profundas em sua densidade dramática.
