03/06/2026
Comédia Drama

Pai Mãe Irmã Irmão

Nestas três histórias, Jim Jarmusch alinha enredos sobre famílias. Na primeira, um pai que nunca foi muito confiável recebe a visita de seus dois filhos. Na segunda, uma mãe recebe a visita anual das duas filhas. Na terceira, um irmão e uma irmã, gêmeos, se reencontram para decidir o que fazer com tudo o que restou dos pais, que morreram. Na Mubi.

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Desde o princípio do Festival de Veneza 2025, Pai mãe irmão irmã, o novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, foi uma produção com perfil para agradar ao presidente do júri, seu compatriota cineasta, Alexander Payne. E, no final, foi mesmo a solução encontrada por Payne para uma premiação em que o júri pareceu bem dividido, com muitos tendendo a preferir a impactante produção tunisiana A Voz de Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania, que levou o Grande Prêmio do Júri - mas merecia mesmo ter vencido o Leão de Ouro que Jarmusch, visivelmente constrangido na cerimônia de premiação, levou para casa. 

No filme, Jarmusch exerce seu estilo sutil para desenvolver três histórias de família bastante inusuais - pelo menos, as figuras que as protagonizam não cabem no figurino tradicional, o que é uma marca registrada na obra desse diretor. Na primeira, é um pai (Tom Waits), que nunca na vida foi muito confiável e recebe a visita dos dois filhos (Adam Driver e Mayim Bialik), num contato que parece cheio de segundas intenções. Na segunda, é uma mãe distante e fria (Charlotte Rampling), também recebendo a visita anual (!) das duas filhas (Cate Blanchett e Vicky Krieps). Na terceira, um par de irmãos gêmeos (Luka Sabbat e Indya Moore) se reencontram para decidir o que fazer com as coisas e as lembranças dos pais que acabam de morrer.

Como toda história de episódios, Pai mãe irmão irmã apresenta desequilíbrios entre um e outro segmento - o primeiro é visivelmente mais rico e sofisticado, a ponto de, quando termina, despertar uma expectativa de que continuasse depois, até porque é aquele em que há uma virada de perspectiva mais instigante. 

O segundo episódio, que reúne três das maiores atrizes em atividade no mundo, é sutil mas deixa um pouco a desejar - carece de um pouco mais de desenvolvimento, embora seja tingido de um veneno muito apropriado. Já o terceiro parece minimalista demais e é, na minha opinião, o mais insatisfatório dos três, talvez por conta de o elenco ser o mais fraco entre os episódios. 

De todo modo, o diretor de Estranhos no Paraíso, Amantes Eternos, Flores Partidas e Paterson já teve momentos mais altos na sua longa carreira, ainda que se deva observar que Pai mãe irmão irmã seja repleto de pequenos detalhes e muito do que ele quer dizer se defina a partir do que não se diz, ou não se faz. Aí está a sua complexidade e a sua dificuldade. É o tipo do filme que, se você piscar, pode perder alguma coisa importante - assim como na vida.

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