Ganhador de uma menção honrosa do Júri Jovem da Mostra Generation 14 plus do Festival de Berlim de 2025, o documentário Hora do Recreio, de Lucia Murat, investiga o Brasil contemporâneo por meio da visão de jovens periféricos do Ensino Médio e Fundamental de escolas públicas do Rio de Janeiro.
Com dispositivo parecido com aquele Eduardo Coutinho usou em alguns filmes, a cineasta leva sua câmera para a sala de aula – não uma dessas escolas públicas, pois não foi autorizada pela Secretaria da Educação, o que não a impediu de colocar os jovens e as jovens num ambiente de escola, e, a partir de interações com uma professora, eles e elas falam sobre a realidade que vivem.
São histórias muito parecidas, mas marcadas pelas suas particularidades, que envolvem racismo, violência sistêmica e doméstica. São realidades até conhecidas, mas não deixa de ser tocante ouvi-las narradas em primeira pessoas por aqueles e aquelas que enfrentam isso na pele – às vezes, literalmente.
Essa primeira parte do filme talvez funcione melhor do que o meio, e depois o filme volta a crescer na reta final. Operações policiais e disputa entre traficantes impedem que a equipe vá a uma das escolas programadas. A diretora é avisada pouco antes das filmagens que, naquele dia, a escola está fechada. Lucia, então, conversa com a moradora de uma comunidade que mantém uma página no Instagram avisando as pessoas da região sobre tiroteios com o intuito de as proteger.
Na escola seguinte, jovens adolescentes fazem uma visita guiada ao centro do Rio de Janeiro, com direito a uma parada no Centro Cultural do Banco do Brasil, que, com sua arquitetura imponente, parece ser feito para excluir pessoas periféricas taxando-se como um tempo da cultura erudita para a classe média. E, por isso mesmo, a visita e a ocupação simbólica são importantes.
Nesses dois momentos, o filme parece um pouco perdido em sua narrativa, distancia-se da proposta, embora traga informações e depoimentos interessantes. A narrativa começa tão lá em cima que parece difícil manter o nível, que só é reencontrado na última parte, quando acompanha um grupo de jovens numa montagem teatral do romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto, escrito em 1922 mas só publicado em 1948.
A história de quase 100 anos da adolescente negra que é enganada por um homem branco mobiliza os alunos – em sua maioria negros e pardos – e mostra como a juventude contemporânea não aceita mais racismo e outras tentativas de rebaixamento. As jovens cheias de atitude provam que, se as coisas não mudaram por completo, estão mudando e as novas gerações não aceitarão caladas.
Nesse sentido, o filme prova, inclusive, a atualidade de Barreto, um escritor negro que, por muito tempo, não teve seu devido reconhecimento na literatura brasileira, mas que, nos últimos anos, tem sido resgatado, e sua obra, como vemos aqui, serve de pólvora para um mundo mais igualitário, justo e melhor.
