O começo do drama belga Aquela Noite lembra o dinamarquês Culpa, no qual um policial designado a atender ligações e encaminhar viaturas recebe o telefonema de uma mulher desesperada. Aqui acontece o mesmo, com a diferença de que é uma policial quem atende ao telefonema. Do outro lado, outra diz ser sua irmã. Logo a policial percebe a situação de risco e começa a ajudar a vítima, que tenta contar de forma oblíqua que foi vítima de um estupro e ainda corre risco.
Esse começo foi central ao curta da diretora e roteirista Delphine Girard, que foi indicado ao Oscar em 2020. Aqui, ela tem a oportunidade de expandir a história para além desse momento, e investigar como se dá a sequência de toda essa situação. A partir daí, acompanha a vida das três pessoas envolvidas na ação inicial. Ali (Selma Alaoui) é a vítima que tenta reconstruir sua vida e lidar com o trauma. Anna (Veerle Baetens) é a mulher que atendeu a ligação e que viveu, também, um episódio de abuso no passado. E Dary (Guillaume Duhesme) é o criminoso.
A trama segue as três personagens e as suas vidas a partir do ato criminoso. O sistema judiciário se revela burocrático e incapaz de lidar com o crime. Como tantas vezes acontece, a história de Aly, assim como sua moral, é questionada, e a vítima que deveria receber atenção e proteção se torna o centro do processo. Curiosamente, a Dary cabe uma posição mais confortável de não precisar, exatamente, provar sua inocência, afinal é a vítima quem deverá provar o crime. Anna acredita em Aly, pois pode ouvir o medo em sua voz na ligação.
Girard, que assina o roteiro, intercala essas três narrativas com momentos de flashback antes de acontecer o crime que definem toda a trama do longa. O elenco, em especial Baetens, é particularmente forte, encontrando personagens complexos e repletos de nuances, enquanto a diretora constrói a tensão sem cair num discurso superficial, debatendo temas de extrema importância.
