Numa época em que alguns procuram ressuscitar ou mesmo normalizar o nazismo, é oportuno resgatar histórias como a de Nuremberg. O filme de James Vanderbilt tem ao centro o famoso julgamento, ocorrido na cidade alemã, entre novembro de 1945 e outubro de 1946 e que passou à história como um marco no campo dos crimes de guerra.
O primeiro a assinalar é o quanto o filme resgata Russell Crowe. O veterano ator neozelandês há muito tempo não cravava os dentes com tanto gosto num papel deste quilate, interpretando o carrasco nazista Hermann Göring. Segundo no comando do 3º Reich, ele seria o substituto de Adolf Hitler, caso a Alemanha tivesse vencido a guerra. Era, portanto, o preso de mais alto escalão em Nuremberg, aquele a quem os Aliados vencedores queriam tornar o exemplo máximo de punição.
Assessorando o comando Aliado, convoca-se um psiquiatra, Douglas Kelly (Rami Malek), que deveria examinar os prisioneiros nazistas, avaliando sua sanidade mental. Entre ele e Göring logo se estabelece um relacionamento peculiar, uma espécie de duelo surdo, em que cada um avalia a capacidade do outro em perscrutar seus movimentos e intenções. E este é o eixo central do filme, que adapta o livro O Nazista e o Psiquiatra, de Jack El-Hai, que teve acesso aos registros do próprio Kelly, um personagem também real.
Embora dedique uma boa porção da narrativa ao julgamento em si, a base da história é a sua preparação e a sua dimensão ética. Antes que os Aliados decidam colocar em julgamento estes prisioneiros - lembrando que Göring entregou-se, junto com sua família, na Áustria -, foi preciso domar os espíritos militares mais extremos, que pretendiam pura e simplesmente fuzilá-los todos - mas isto não seria equivaler-se aos carrascos dos campos de concentração?
Uma dificuldade é que o julgamento em si carecia de marcos legais preexistentes que deveriam, portanto, ser criados, o que se torna a primeira preocupação do procurador-geral Robert H. Jackson (Michael Shannon), que deve liderar a acusação.
Enquanto isso, o psiquiatra visita os presos, passando bastante tempo com Göring, sem dúvida, o caso mais fascinante, dada a astúcia do comandante. E aí também há uma questão ética envolvida, já que Kelly não está nesta tarefa apenas idealisticamente. Sabe que está numa posição privilegiada para ter acesso a dados exclusivos, que lhe servirão de base num futuro livro pelo qual espera ter fama. Göring, por sua vez, confia o bastante em seu ego exacerbado para driblar seus acusadores no tribunal. Ele dá mostras de sua inteligência perversa num diálogo tenso com o psiquiatra, em que o questiona se não foram crimes de guerra os bombardeios Aliados sobre cidades alemãs ou as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, matando milhares de civis - o que dá a medida da dificuldade da tarefa de condená-lo num julgamento altamente midiatizado, no qual se espera também o domínio da narrativa, após a vitória militar dos Aliados.
É, portanto, um grande acerto do filme fugir do maniqueísmo ao delinear os personagens, evidenciando as nuances de suas responsabilidades e interesses, tendo-se em conta que o grande objetivo em Nuremberg era condenar os autores das atrocidades da Alemanha nazista, criando um exemplo a nunca mais ser repetido -o que infelizmente não aconteceu. Vivemos num tempo em que crimes de guerra, genocídios e abusos de direitos humanos continuam a ser praticados. Portanto, é preciso continuar falando de tudo isso.
