A Mulher Que Chora parte de uma lenda bastante conhecida na América Latina, mas que no Brasil só chega por conta de filmes: La Llorona: uma mulher que, para se vingar do marido, afoga os próprios filhos. Consumida pela culpa, ela vagueia chorando, procurando-os perto de onde existe água. Escrito e dirigido pelo venezuelano George Walker Torres, o longa brasileiro transpõe de forma simbólica essa história para o nosso país, abordando questões de gênero e classe.
O foco da narração aqui é o pequeno Miguel (Zayan Medeiros), de 7 anos, que, após a separação dos país, se muda com a mãe Helena (Julia Stockler), para um casarão onde vivem a avó e a bisavó do menino, além de uma empregada venezuelana, Carmen (Samantha Castillo), que conta ao menino a história da chorona.
Miguel e Helena são distantes, ela sempre à beira de um ataque de nervos, e ele sempre solitário, que encontra em Carmen uma figura materna para suprir a própria mãe. Já a venezuelana, por sua vez, é solitária e sofre uma exploração das patroas que beira o doentio – incluindo grandes doses de xenofobia. A proximidade com menino é seu escape para um lugar menos opressivo e sufocante.
Walker Torres constrói a narrativa de forma cadenciada e melancólica, explorando os espaços sombrios do casarão com a exteriorização das tensões e tristezas de suas personagens. A lenda da mulher que chora será um rito de passagem simbólico para Miguel em sua entrada no mundo dos adultos, a ideia da perda da inocência. A chorona parece morar numa floresta ao lado do casarão, um fato que impressiona o garoto, que fica, ao mesmo tempo, assustado e fascinado.
La Llorona é uma figura conhecida de filmes de terror (tanto mais comerciais, como mais artísticos), que aqui está inserida num drama que flerta com o cinema de gênero, uma combinação que Walker Torres dosa com eficiência, pois sabe o quanto a realidade pode ser como um filme de terror – especialmente em se tratando de violência de gênero contra mulheres.
A combinação da temática latina com a realidade brasileira serve para romper fronteiras e criar um denominador temático e formal, que une culturas marcadas pelos códigos da latinidade – como a própria ideia da masculinidade tóxica, tão típica do macho latino, materializada especialmente na ausência dessa figura, como o pai de Miguel que agrediu a mãe, o que fez com que ela e o menino saíssem de casa.
A mulher que chora caminha de forma certeira e segura por meandros da percepção do pequeno protagonista, que vê tudo o que acontece, mas ainda não compreende. É um filme de profunda tristeza e, também, profundo poder de entendimento de sociedades e relações que precisam ruir para serem reconfiguradas.
