02/07/2026
Drama

A Conspiração Condor

1976. A ditadura militar foi instalada há 12 anos. O ex-presidente Juscelino Kubitschek morre num acidente de automóvel. Uma repórter, Silvana, vai investigar detalhes sobre o ocorrido e começa a levantar uma série de inconsistências suspeitas, levando a desconfiar de que o acidente possa ter sido provocado.

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Figuras centrais da política brasileira nos anos 1950 e 1960, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda morreram em 1976, em plena ditadura militar, com uma diferença de 9 meses entre um e outro. O primeiro, num acidente de automóvel. Os dois outros, de infarto. As mortes que, inicialmente, foram consideradas acidentais, com o correr dos anos, ganharam contornos suspeitos - especialmente por terem ocorrido depois que o ex-governador Lacerda, de início apoiador da ditadura de 1964, depois seu opositor, havia já procurado os dois outros, ex-presidentes perseguidos e de outros espectros políticos, para formar uma Frente Ampla que restituísse a democracia no Brasil. 

A suspeita de uma conspiração para matar estas três figuras-chave da política brasileira alimenta o enredo do thriller A Conspiração Condor, dirigido por André Sturm e a partir de roteiro assinado por ele e Victor Bonini. Na trama ficcional, ambientada em 1976, uma jovem jornalista, Silvana (Mel Lisboa), começa a desconfiar das pontas soltas do acidente que matou Juscelino Kubitschek, entrevistando passageiros de um ônibus que estaria envolvido - só que não estava. As testemunhas, no entanto, começam a mudar seus relatos ou a desaparecer. Algumas são mortas, levando a crer que algo maior está por trás dos acontecimentos. A jornalista não consegue ir adiante, até que outra morte, o infarto de Jango, exilado no Uruguai, meses depois, cria uma nova expectativa. 

O tema é envolvente e, 50 anos depois, vários fatos dão sustentação às suspeitas de atentados contra a vida dos três personagens, cuja união teria certamente efeito decisivo na volta da democracia ao Brasil antes de 1985, ano em que finalmente a ditadura terminou. Mas thrillers políticos têm suas leis narrativas e, por mais que a dedicação da repórter seja comovente, seu perfil neste roteiro não deixa também de apresentar inconsistências a olhos vistos.

A primeira delas é a estranhíssima amizade de Silvana com ninguém menos do que o censor do jornal onde ela trabalha, Floriano (Nilton Bicudo). Que jornalista dos anos 1970 seria amigo de um censor, saindo para tomar cerveja com ele e fazendo confissões sobre sua vida pessoal à figura detestável que, dentro das redações, cortava textos e decidia arbitrariamente o que o jornal publicaria ou não? Totalmente improvável, o que cria uma incredulidade que prejudica de saída o andamento da história.

Difícil acreditar também que, no sombrio 1976, ano de tantas perseguições e prisões políticas, quando ocorreu também a morte sob tortura do operário Manoel Fiel Filho, meses depois do assassinato nas mesmas circunstãncias do jornalista Vladimir Herzog, no final de 1975, Silvana pudesse prosseguir por tanto tempo com suas investigações - que chegam a uma viagem ao Uruguai para entrevistar a viúva de Jango, Maria Thereza Goulart (Liz Reis, também produtora do filme) ? 

A essas inconsistências somam-se ambiguidades da conduta da colega jornalista mais experiente, Marcela (Maria Manoella), que finalmente concorda em acompanhar Silvana para uma conversa com Carlos Lacerda (Pedro Bial) - àquela altura, o único sobrevivente do trio. E, mais ainda, a inocência de Silvana com relação ao colega que vive no exterior, Juan (Dan Stulbach) ?. Se na ficção muitas liberdades se pode permitir, o gênero do thriller, ainda mais o político, calcado em fatos bastante reais, não pode se afastar tanto do plausível, sob o preço de retirar força dramática ao filme.

Se mérito há nesta história é recolocar em pauta a discussão sobre a Frente Ampla e sobre o passado da ditadura, sobre cujos crimes há tanto ainda que desvendar.

 

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