O diretor francês François Ozon foi buscar num clássico da literatura francesa dos anos 1940, O Estrangeiro, de Albert Camus, a inspiração para seu novo drama - um filme elegante, filmado num belo preto-e-branco, que resgata o complexo dilema central de seu protagonista, Meursault (interpretado pelo jovem ator Benjamin Voisin, que esteve em Veneza 2024 com o drama Brincando com Fogo, das irmãs Delphine e Muriel Coulin).
Ao despojar de cores a ambientação da história, na Argélia do final dos anos 1930, Ozon já mostra ao que veio. Procura um despojamento das cores vibrantes e do sol escaldante do país do norte da África, na época uma colônia francesa. O colonialismo e o racismo contra os árabes - proibidos de frequentar certos lugares, como os cinemas - é tônica marcante como subtexto da história, em que um crime contra um jovem local desencadeia toda a discussão ética que o romance provoca há mais de 80 anos.
Tudo gira em torno de um ato incompreensível de Meursault, um modesto funcionário de escritório, que acaba de perder sua mãe e envolveu-se com uma jovem, Marie (Rebecca Marder). Ele é alguém que vive sempre no presente, aparentemente desprovido de preocupações morais, que fala sempre o que lhe vem à cabeça, sem prurido nem filtros.
Sua ligação com um vizinho, Raymond Sintès (Pierre Lottin), coloca-o em contato com um grupo de jovens árabes, com cuja irmã este francês mantém uma relação tóxica, de exploração. E, mesmo sem estar diretamente envolvido no caso, Meursault acaba matando um deles, um crime sem motivação estrita.
Toda a discussão gira em torno disso - quem é, finalmente, Meursault, o que guia suas escolhas? São fundamentais, por isso, suas manifestações no tribunal, em que a preocupação dos acusadores parece mais ser julgá-lo pela falta de lágrimas no sepultamento da mãe do que pela morte de um árabe, pessoa que os colonialistas desprezam. Outra conversa importante é com o capelão da prisão (Swann Arlaud), em que a falta de conexão religiosa do protagonista expande ainda mais os limites da discussão deste grande filme - que não é fácil, nem para muitos.
Quem conhece o livro, poderá avaliar melhor o valor da adaptação de Ozon e as suas precisas intervenções para trazer para a tela um romance tão minimalista e intenso.
