A cinebiografia do psiquiatra e pensador anticolonial francês Frantz Fanon, dirigida por Jean-Claude Barny, demonstra a preocupação de ser detalhista - e isso é positivo, ainda que isso acarrete um tom um tanto didático. Mas isso, de qualquer modo, tem sua utlilidade por trazer informações a um público que talvez desconheça a figura de um grande pensador, revolucionário, anticolonialista e antirracista, que teve o infortúnio de uma morte precoce, aos 36 anos, em 1961 - justamente quando se iniciava a descolonização de diversas nações africanas, uma causa para a qual ele tanto contribuiu.
Nascido na Martinica, então colônia francesa, em 1925, Fanon formou-se psiquiatra e, nessa função, transferiu-se à Argélia. Tinha apenas 28 anos ao chegar ao país africano para assumir a chefia da divisão psiquiátrica do Hospital Blida. De cara, chocou-se com as condições lamentáveis impostas aos pacientes árabes, segregados em alas separadas, em situação abominável, desumana - mais um sinal de como o colonialismo exercia sua opressão.
Logo o psiquiatra muda completamente essas regras, soltando os pacientes para atividades ao ar livre e trazendo para cuidar deles funcionários também árabes, que pudessem compreendê-los. Uma mudança vista com desdém pelo diretor-geral, Auguste Darmain (Olivier Gourmet), impregnado de um conservadorismo cheio de racismo. Algo que o próprio Fanon, sendo negro, compreendia muito bem, vivendo na pele situações tensas também na Argélia, com colonos franceses que não o aceitavam numa posição de destaque.
Ao mesmo tempo em que deflagrava esta experiência libertária no hospital, Fanon entrava em contato com a dura realidade argelina, engajando-se na luta pela independência desse país da França. Aperfeiçoava, assim, um pensamento que se traduziu numa expressiva produção intelectual, em livros como Os Condenados da Terra.
O filme dá conta de episódios essenciais dessa biografia mas não se espere nenhuma ousadia estética ou formal. De todo modo, há um profundo respeito e sobriedade neste que é também um relato honesto, que resgata uma figura cuja radicalidade faz muita falta num mundo assombrado pela extrema-direita.
