Representante luso-brasileiro na seção Un Certain Regard em 2025, O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, envereda pelo interior da Guiné-Bissau para compor um relato sobre a permanência do colonialismo através das experiências de um engenheiro, Sérgio (Sérgio Coragem). Português, ele chega a uma localidade que se prepara para a construção de uma estrada que afetará profundamente a vida dos moradores locais. O recém-chegado é encarregado de escrever um relatório de impacto ambiental, urgente para liberar a obra, receptora de fundos internacionais.
Desde o começo, o filme de Pedro Pinho (conhecido por seu magnífico trabalho anterior, A Fábrica de Nada), arma uma atmosfera de estranheza, amparada no choque cultural, na demolição das certezas, inclusive as bem-intencionadas e politicamente corretas, de que o jovem engenheiro vem imbuído. Ele não tarda a receber lições de vida de duas descoladas figuras locais, Gui (o ator brasileiro Jonathan Guilherme) e Diára (a atriz cabo-verdiana Cléo Diára, vencedora do prêmio de melhor atriz na UCR em Cannes), por quem, aliás, se sente sexualmente atraído. E, também nessa esfera íntima, Sérgio terá muito a aprender.
A longo das extensas 3 horas e meia de duração, O Riso e a Faca - que colhe seu nome de uma música de TomZé - , insere todo um contexto, que permite vislumbrar tanto a vitalidade cultural guineense quanto uma crônica pobreza e falta de estrutura, esta uma herança maldita de uma colonização portuguesa que, como todas as outras, fixou-se na exploração extensiva dos recursos naturais, abandonando a população negra à própria sorte, sem educação, sem saneamento básico, sem estradas, criando essas lacunas que perduram até agora.
O engenheiro, então, torna-se um personagem à deriva em muitos desses embates, abalado por preocupações éticas com esse povo que começa a conhecer e a gostar e as pressões dos próprios patrões para que produza rapidamente o relatório que libera a obra da estrada. Também é sintomática a sequência que mostra outros funcionários portugueses da empresa, que se comportam exatamente como seus antecessores colonizadores em relação aos empregados locais. Nada mudou em sua mentalidade racista.
Integrado por 31 brasileiros em sua equipe técnica, como a produtora Tatiana Leite, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo e a montadora Karen Harley, o filme tem uma outra versão, ainda maior, de 5 horas.
