Já que Backrooms: Um Não-lugar toma emprestada uma expressão do antropólogo francês Marc Augé para seu subtítulo, por que não começar com ele, então? Para o pensador, um não-lugar são espaços de consumo, padronizados, anônimos e destituídos de historicidade. Os exemplos mais clássicos são aeroportos e shopping centers.
O filme escrito e dirigido pelo jovem youtuber de 20 anos Kane Parsons não figura esse conceito, que parece mais uma sacada vazia da equipe de marketing brasileira para tentar criar um subtítulo descolado. E, como o próprio longa, é legal de conceito e vazia de significados. Talvez como um même da internet – de onde vem a ideia original.
Não há dúvidas de que o desenho de produção do longa é impressionante e bem feito, com labirintos e cômodos dos mais diversos tamanhos e formatos. Mas sua sagacidade para por aí. Num filme que pretende o tempo todo jogar símbolos e tem como uma protagonista, no mínimo, de um freudismo freestyle com conexões e discursos simplórios e proposital e supostamente enigmáticos com o intuito de criar burburinho na internet ou levar pessoas ao cinema mais de uma vez – nas duas opções, jogadas de marketing e viralização, algo que um youtuber de sucesso bem sabe fazer.
O selo “um filme da A24” se esvazia a cada nova produção, perdendo sua identidade – se é que um dia realmente a teve – para se tornar apenas um atalho e desviar a atenção do que importa. É fato consumado que toda uma geração de cinéfilos adora os filmes do estúdio simplesmente porque sim. Aqui, mais um caso, que não disfarça certo oportunismo com um verniz de cult e cool.
Renate Reinsve é uma psicanalista que parece ter se formado num curso de algumas semanas. Seu paciente é Clark (Chiwetel Ejiofor), dono de uma loja decadente de móveis que encontra algo curioso no subsolo dela, uma parede que ele pode atravessar e lá estão os backrooms. Cômodos surreais, que variam de tamanho, formato e inclinação. Em alguns deles há móveis, em outros, criaturas estranhas.
Pouco depois do paciente, que desaparece, é Mary quem adentra um deles em busca de Clark, e tudo se torna ainda mas bizarro. É louvável que o roteiro de Will Soodik, baseado na série Parsons para internet, evite explicações baratas, mas, ao mesmo tempo, deixa tudo meio óbvio em seus psicologismos e confuso, jogando personagens aleatórios, como um cientista interpretado por Mark Duplass. O que são os backrooms? Um experimento da Guerra Fria? Isso importa? Não exatamente, mas sempre há a ponta solta permitindo continuações a irem para frente ou para trás na história – tal qual os corredores de um backroom.
