Logo em sua primeira cena, Labirinto dos Garotos Perdidos se insere no terreno do fantástico. Uma voz misteriosa e doce (de Tuna Dwek) diz: “Estão todos prontos? Podemos começar? Era uma vez um reino distante...” A partir daí, o longa de Matheus Marchetti se insere num universo que marca a sua obra, o trânsito entre a fantasia e o terror.
Gótico queer contemporâneo, o longa é marcado por tons soturnos, seja ao ar livre ou no Aquário de São Paulo, onde o cenário claustrofóbico materializa as incertezas e sufocamentos do protagonista, Miguel (Giuliano Garutti), um jovem do interior que busca um lugar que o acolha em São Paulo – de forma real e metafórica.
A presença de um serial killer à solta só aumenta a insegurança do personagem, que transita pelas ruas e parques sempre abertos e vazios – nada acolhedores. Encontros fortuitos permitem descobertas, mas, também, evidenciam o perigo. Tudo é um risco quando se é um jovem gay numa cidade que oferece tantas opções (e riscos) de prazer.
Marchetti, que também assina o roteiro, é conhecido por seu vigor estético e pulsão de um sonho (ou pesadelo) febril em seus filmes. Aqui ele leva ao fronteiriço tomando para si elementos oníricos que transmutam no horror. As cores exageradas dão a força visual das incongruências na vida do personagem em busca de sua própria compreensão e de um prazer que lhe parece negado a todo momento.
Ao mesmo tempo, os personagens, excetuando-se o protagonista, são distantes e frios. Afinal, sob o ponto de vista de Miguel, os homens da megalópole são incompreensíveis. Há desde o momento cômico – com uma figura interpretada pelo próprio Marchetti – ao soturno, com a tentativa de sexo que é interrompida quando o sujeito (Gabriel Muglia) se revela um suicida.
Labirinto dos Garotos Perdidos é um passo adiante na carreira de Marchetti, um jovem cineasta com uma filmografia já marcante em sua forma e conteúdo. Seu olhar carinhoso para personagens da comunidade LGBTQIA+ não o impede de observá-los com rigor, evitando paternalismos ultraprotetores e mostrando-os como são com suas dores e delícias de ser o que são.
