24/09/2026
Terror

Virtuosas

Um trio de mulheres participa de um retiro com uma influencer que as ajudará a se tornarem esposas tradicionais mais eficientes na casa e nas redes sociais. Mas as coisas saem de controle quando uma delas fica paranóica. Nos cinemas.

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Dirigido por Cíntia Domit Bittar, Virtuosas abre com um comercial na tela grande numa convenção das tais mulheres virtuosas. Nas imagens, a líder do grupo, Virgínia Heinzel (interpretada por uma Bruna Linzmeyer com um olhar cortante), convida as participantes a passar com ela, num retiro, “dias preciosos, para abraçar a sua feminilidade, sua fé, e alcançar a sabedoria que sempre almejou”. 

As mulheres virtuosas seguem o perfil da direita: são submissas aos maridos, não vacinam os filhos e são contra o feminismo. O que, no entanto, a diretora muito bem percebe e traz para o filme é que esse modo de vida as coloca numa lógica exacerbada de mercadoria. O que o retiro irá ensinar a elas é a maneira de se “vender”, seja para o marido ou para seguidores, de forma mais eficiente. 

Uma combinação do romance Mulheres Perfeitas, de Ira Levin, e Legendários, Virtuosas é uma sátira política e um terror social que retrata com eficiência esse fenômeno do nosso tempo que ganhou força graças às redes sociais. E, embora a vivência dos papéis de gênero tradicionais não seja novidade, essa configuração dá ao patriarcado uma espécie de soft power exercido pela imagem sempre muito bem cuidada e visualmente atrativa dos vídeos e fotos das esposas tradicionais. Isso se tornou tão fundamental que a mentoria de Virgínia inclui discussões sobre o reel ideal para o Instragram – é preciso começar se apresentando com nome completo, sempre com uma voz meiga. 

Virgínia (um nome que, no mínimo, ressoa no presente), está sempre impecável, com seus cabelos num corte chanel muito lisos e saudáveis, e no rosto uma maquiagem discreta. Entre as jovens mulheres que leva ao retiro, ao qual ela chama de mentoria, estão Germina (Maria Galant), uma jornalista infiltrada, e Lorena Canollo (Juliana Lourenção, roubando a cena e impressionante no papel), esposa de um político e que também leva seu bebê de colo.

Aos poucos, no entanto, a experiência do retiro – algo sobre o qual Germina pretende fazer uma reportagem bombástica – se torna próxima do terror quando a paranoia de Lorena se torna mais intensa. Para ela, alguém sempre quer matar seu bebê. É algo revelador, dentro do filme, no sentido de uma maternidade como um trabalho exaustivo e não remunerado que ela realiza por obrigação a ponto de enlouquecer por causa disso. 

Domit Bittar dirige com sagacidade e vigor. A ideia não é rir dessas mulheres, por mais insólita e até cômica seja a situação, mas tentar compreender os mecanismo de dominação que estão em atividade a ponto de que tal fenômeno deixe de ser apenas uma trend e se torne algo que sai das redes sociais e se materialize na vida real. Nesse sentido, Virtuosas é muito feliz ao retratar as implicações e consequências disso tudo.  

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