05/06/2026
Terror Drama

Alpha

Alpha é uma adolescente vivendo num mundo apocalíptico onde um vírus desconhecido, transmitido por sangue e relações sexuais, transforma as pessoas em mármore. Após fazer uma tatuagem precária, a mãe dela se desespera, devido ao risco de que a menina tenha se contaminado. Nos cinemas.

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Julia Ducournau é uma cineasta interessada em criar imagens fortes – e ela é boa nisso. Todos os elementos, no entanto, ficam subjugados a essa escolha formal. Ela tem boas ideias, boas sacadas, que acabam, porém, esvaziadas em imagens cujos sentidos esmaecem. Em seu novo filme, Alpha, isso é mais gritante do que no seu premiado Titane.

Há um elemento visual marcante nesse filme, no qual as pessoas são acometidas de um vírus pouco conhecido, transmitido pelo contato com o sangue contaminado ou por relações sexuais – sobre o fato de isso ser uma alegoria simplória e óbvia para o HIV, voltamos depois. Enfim, após o contágio, em algumas semanas, o corpo das vítimas começa a se tornar mármore. É difícil descrever essa imagem em palavras, porque ela é muito impressionante. Tem que ver. 

Pessoas contaminadas são ostracizadas, e os hospitais estão apinhados de pessoas cujos corpos estão se tornando belas pedras coloridas, tal como as antigas estátuas gregas e romanas. Essa é a ideia central do filme, fazendo o retrato dessa epidemia, num movimento narrativo que a esvazia por sua obviedade. Diante disso, a diretora, que também assina o roteiro, começa a trazer mais e mais elementos, que se acumulam sem nunca se resolver dramaturgicamente. Tudo culmina num apocalipse gratuito, e, novamente, óbvio, com imagens impressionantes mais por sua estética do que sua figuração. 

Alpha (Mélissa Boros) é a protagonista, filha de uma médica (Golshifteh Farahani), que se desespera quando encontra um A tatuado no braço da adolescente. A primeira medida é reforçar a vacina antitetânica e esperar duas semanas para fazer o teste do vírus. Nesse meio tempo, o irmão dessa mulher, Amin (Tahar Rahim), reaparece em sua casa, pedindo abrigo. 

Os corpos são loci de terroris nos filmes de Ducournau, seja se transformando em máquinas, como em Titane, ou em mármore, em Alpha. Amin, numa atuação marcante de Rahim, é, basicamente, carne e osso, consumido por um vício em drogas que parece ir e vir. Quando tem paradas cardíacas, o que acontece com certa constância, sua irmã o ressuscita.

Nesse cenário, corpos se tornam mercadorias descartáveis, e as pessoas seguem junto. Alpha é maltratada na escola pela suspeita de estar contaminada. E as colegas e colegas se desesperam quando ela tem um corte do qual sai sangue – motivo de terror, e nem podemos culpar esses adolescentes, pois Ducournau está resgatando um cenário de pânico biológico e social da epidemia da AIDS nos anos de 1980 e 1990. 

Exageros dominam o filme, sejam de imagens ou de sentimentos, a ponto de tornar tudo pouco suportável, enquanto novos fios narrativos são configurados e esquecidos, e dois tempos narrativos (marcados pelos diferentes tipos de cabelo de Farahani) se  alternam, sem acumular efeito. No fim, Alpha, quando muito, é um beta. 

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