11/06/2026
Drama

8 Décadas de Amor

Adela e Otávio nasceram no mesmo dia: 14 de abril de 1931. Ao longo de oito décadas, diversos acontecimentos e as divisões da política na tumultuada história da Espanha desempenharão um papel para separá-los e uni-los. Nos cinemas.

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Julio Medem é um diretor que gosta de trabalhar romances e coincidências, num estilo labiríntico de que é a prova mais consagrada seu cult Os Amantes do Círculo Polar (1998). Ele o faz com bastante ambição técnica e maestria em seu novo filme, 8 Décadas de Amor, em que entrelaça as complicações de uma história de amor e as contradições políticas da história da Espanha num melodrama construído em 8 capítulos e 8 planos-sequência.

No dia 14 de abril de 1931, proclamação da Segunda República, nascem duas crianças, Otávio e Adela - separados não só pelo local de nascimento, em aldeias próximas, como pelas convicções políticas de suas famílias. Otávio é filho de um fervoroso franquista, de quem herdou o nome - e que será interpretado sempre por Javier Rey. Adela, por sua vez, herdou o nome da mãe, morta no parto, e será interpretada por Ana Rujas. Seu pai, o professor Venâncio (Tamar Novas), é por seu lado um apaixonado esquerdista e republicano, cuja milícia será responsável pelo fuzilamento de Otávio pai, 8 anos depois.

Cada capítulo da história, marcado também pelo som de batidas de passos de flamenco, conduz as vidas de Otávio e Adela por caminhos distintos. Adela casa-se com um advogado, criando um filho que não é dele, experimentando o sufocamento de um casamento tradicional, contaminado pelo machismo. Otávio, por sua vez, casou-se com Cláudia (Loreto Mauleón), transferindo-se com ela e a mãe Rosa (María Isasi) para Madri, deixando a vida militar em que ele não se sentia à vontade. Ele também vive a opressão de um casamento em que é cobrado o tempo todo pela responsabilidade de sustentar a mulher, a mãe e os três filhos, tornando-se taxista - profissão que lhe permite ter seu primeiro grande encontro com Adela.

O ano de 1977 abre a porta da grande mudança política, causada pela morte de Franco e a iminência das primeiras eleições em mais de 40 anos. No país que se moderniza, está chegando o divórcio, o que acende uma luz para Adela. 

Ao mesmo tempo em que constrói os singulares encontros e desencontros deste casal central, Medem insere os elementos da polarização política, que continua nas próximas gerações, nos seus filhos, com consequências igualmente mortais, como na Guerra Civil dos anos 1930. Enamorado pelo melodrama, o diretor e roteirista constrói um filme impregnado de política, pelo viés das escolhas de dois lados que têm-se mostrado incapazes de conciliação - como demonstra um almoço em que discussões brotam à mesa. Medem com certeza não quer escolher um lado e deixa isso claro dedicando o filme a “todos e a cada um dos espanhóis”. E optando por retratar um romance capaz de desafiar a própria morte,que certamente cairá melhor aos olhos do público do que a boa parte dos críticos. O filme venceu, aliás, o prêmio do público no Festival de Málaga.

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