Mais do que “o que vemos”, interessa à cineasta Jane Schoenbrun (a quem se deve referir com pronomes neutros) “como vemos e o que isso faz de nós”. Em seus dois primeiros longas, Schoenbrun lidou com um jogo online (We’re All Going to the World’s Fair, de 2021) e um programa de televisão (Eu vi o brilho da TV, de 2024). Agora, ao centro, está uma malfadada franquia fictícia de terror em Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte.
Pisando fundo no acelerador da metalinguagem, Schoenbrun observa como o cinema estadunidense lida com o slasher e suas franquias. No passado, Acampamento Miasma (o filme dentro do filme) nasceu como um sucesso, inserindo-se na tradição de personagens como Jason Voorhees e Michael Myers (a semelhança do nome dele com o do ator de Austin Powers rende uma das melhores piadas aqui). Mas entrou em declínio, com sequências e reeboots, e essa história é contada de forma brilhante nos créditos iniciais.
Entra em cena, no presente, a jovem cineasta indie Kris (Hannah Einbinder), um talento promissor contratado para fazer a franquia renascer décadas depois. Ela tem uma ideia bastante original, que é procurar a final girl do longa original, ou seja, a única que sobreviveu à matança cinemática. Ela é Billy Preston (Gillian Anderson) uma espécie de Norma Desmond (uma semelhança que não passa incólume aqui – pista: o turbante de Billy e o fato de que ela está sempre pronta para seu close up) do terror, que vive isolada no próprio acampamento que serviu de cenário. Depois do sucesso do original, ela se negou a voltar às sequências, tornando-se uma espécie de lenda. Por isso, Kris vê nela o elemento central para revigorar a franquia.
Mais do que um filme de terror, Schoenbrun faz um filme sobre como o terror é um gênero capaz de representar cinematograficamente as ansiedades e medos juvenis. Olhar para a franquia do passado é compreender seu apelo duradouro, mais do que mero produto comercial. A jovem cineasta, cria do Festival de Sundance – tal qual Schoenbrun, outra piscadela metalinguística – tem ideias bem originais para as quais o executivo do estúdio (Dylan Baker, numa pequena participação marcante) não está preparado – ou interessado.
Schoenbrun, claramente, compartilha do mesmo carinho pelo slasher e, embora, nem tudo funcione tão bem, é inegável que esta faz uma carta de amor. Na sua ideia, filmes de terror não são feitos mas nascem, de forma natural, a partir das tensões de cada momento enfrentadas por jovens rumo ao amadurecimento. Em outras palavras, os exemplares do gênero são uma construção histórica que responde ao seu momento, mas também marcados por elementos perenes típicos dos ritos de passagem para a vida adulta.
Billy é consciente disso, e talvez Kris, em certa medida, também. Reinventar Acampamento Miasma é, para ela, tocar nas questões prementes da atualidade, atravessadas, em especial, por gênero. Sexualidade sempre foi um tema caro aos slashers – em certos casos, num sentido reacionário, já que apenas jovens virgens escapam da fúria sangrenta de um assassino mascarado.
Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte é um filme sem receio de se abrir às possibilidades, trazendo fôlego às personagens, que são ancoradas em atuações marcantes de Einbinder e Anderson. O relacionamento entre as duas figuras, que se aprofunda cada vez mais, não é um embate de gerações ou visões de mundo, mas se torna um espaço seguro para ambas se abrirem sobre quem são e o que querem de suas vidas. Tudo é feito com tanto esmero e sagacidade – fora o apreço pelo cinema de gênero – que só prova o quanto Schoenbrun é uma das vozes mais originais de sua geração.
